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I Congresso Internacional Santuários...

Cultura, Arte, Romarias, Peregrinações, Paisagens 
e Pessoas

8 - 14 setembro 2014 | Alandroal | Portugal


Os SANTUÁRIOS como espaços de devoção em todos os tempos e em todas as culturas é o objecto de análise deste congresso, onde se desafiam todos aqueles que vivem e estudam os santuários: antropólogos, arqueólogos, arquitectos, artistas plásticos e performativos, biólogos, conservadores/restauradores, crentes, 
devotos e peregrinos, curadores, escritores, designers, 
filósofos, gastrónomos, geólogos, historiadores, 
historiadores de arte, médicos, musicólogos
músicos e musicólogos, psicólogos, 
sacerdotes, sociólogos 
e todos aqueles que entendam que o seu trabalho ou a sua devoção tem uma relação com um conceito amplo de santuários. 

Site Oficial

CIEBA: Centro de Investigação em Estudos de Belas-Artes
FBAUL: Faculdade de Belas-Artes da Universidade de Lisboa
congresso.santuarios@gmail.com

Dossier fotográfico na Nova Carta Arqueológica do Alandroal - O Tempo dos Deuses




O Tempo dos Deuses - Nova Carta Arqueológica do Alandroal (2013)

Autores:
Manuel Calado & Conceição Roque

Fotografia:
José M. Rodrigues (Prémio Pessoa 1999)
Ricardo Soares
Manuel Calado

Castelo de Terena

Alandroal | Terena | São Pedro

As origens do castelo de Terena remontam à Baixa Idade Média, concretamente ao século XIII, altura em que o Alto Guadiana foi território de fronteira. As informações mais recuadas que possuímos dão conta de um foral passado à localidade em 1262, pelo cavaleiro régio Gil Martins. Desconhecemos se, logo após esta data, se terá iniciado a construção da fortaleza, mas tal iniciativa não se deverá afastar muito desta cronologia, dado o interesse que D. Dinis teve na consolidação desta linha de fronteira, em natural articulação com os castelos de Elvas, Juromenha e Alandroal.

Uma outra perspectiva situa a sua edificação apenas no século XV, por iniciativa de D. João I. Esta hipótese tem como fundamento a doação da vila de Terena à Ordem de São Bento de Avis, momento que pode ter implicado a renovação de uma estrutura anterior, não implicando, necessariamente, a total construção do monumento no século XV. De resto, já em 1380 se refere o castelo e a sua barbacã, o que indica claramente encontrar-se a fortaleza em construção.

Em 1482, D. João II nomeou Nuno Martins da Silveira como alcaide e, nas primeiras décadas do século XVI, o reduto foi objecto de uma ampla campanha de obras, que deixou marcas visíveis na estrutura. Todavia, é de considerar que uma parte considerável da fortaleza actual data, efectivamente, da viragem para o século XIV.

Planimetricamente, o castelo define um pentágono irregular (ao contrário das fortalezas manuelinas, que privilegiaram as plantas quadrangulares e racionais), a que se associam quatro torres circulares dispostas assimetricamente, com apenas uma protegendo um ângulo da muralha. A torre de menagem, de planta quadrangular de dois pisos, localiza-se a meio de um dos panos da cerca e implanta-se sobre a porta principal, protegendo-a por meio de uma pequena barbacã dominante, dotada de adarve e terraço ameado. A entrada principal, em cotovelo, revela bem o alcance das obras manuelinas, uma vez que é acedida por dois amplos arcos de volta perfeita, com impostas marcadas e decoradas com bolas e entrelaçados. Pensa-se que aqui tenha trabalhado Francisco de Arruda, ao redor de 1514, arquitecto reponsável pela alteração da entrada principal e da própria torre, dotando-a de um interior apalaçado.

A entrada original não se encontra bem definida, apesar de se saber ter sido desenhada por Duarte d'Armas em 1509. Este desenho revela uma estrutura harmónica, com entrada directa protegida de ambos os lados por cubelos associados à torre de menagem. Parece tratar-se de uma solução típica da arquitectura militar do período dionisino (eventualmente enriquecida por obras quatrocentistas). No lado oposto à entrada situa-se a Porta do Campo (também designada por Porta do Sol). Esta, apesar de ter sido entaipada durante as obras do século XVII, mantém a sua estrutura original gótica, de arco apontado ladeada por dois torreões circulares, numa estrutura simétrica bem ao gosto do Gótico pleno.

Em 1652, o castelo foi ocupado pelas tropas castelhanas, sendo que os nossos arquitectos de então não privilegiaram a fortaleza, preferindo, de longe, a fortificação de Elvas. Com efeito, não encontramos em Terena qualquer sistema abaluartado de defesa e, à excepção da Porta das Sortidas, deliberadamente voltada a Espanha, nenhum outro elemento evoca o bélico momento seiscentista.

Os séculos seguintes determinaram um progressivo abandono. No terremoto de 1755 registaram-se alguns estragos, não se podendo assegurar que se tenham realizado obras de restauro. A consolidação da estrutura chegou apenas no século XX, por intermédio da DGEMN, que efectuou uma primeira campanha em 1937, incluindo a reconstrução de um pano de muralha e a reinvenção de ameias. Na década de 80, realizaram-se diversos trabalhos na torre de menagem, de que importa destacar a reconstrução de abóbadas e uma série de adulterações aos elementos originais.

Castelinho de Lucefecit

Alandroal | Terena | Nossa Senhora da Conceição

Povoado fortificado, de dimensões exíguas (inferior a 0,5 ha), implantado num imponente esporão rochoso dominante sobre a margem esquerda da Ribeira de Lucefecit. Ainda que cercado por elevações de maior altitude, a defensibilidade natural é bastante elevada, excepto pelo lado SE, onde ainda são visíveis alguns troços de muralha em xisto.

A área de implantação disponível é diminuta e delimitada por aguçados afloramentos xistosos. Na extremidade mais próxima do único ponto de acesso ao local, ergue-se uma escombreira, muito afectada por uma enorme vala de destruição, no interior da qual são visíveis muros de xisto. Um muro encerra o acesso, a partir do exterior, à pequena plataforma onde se desenvolveria a ocupação, aumentando a já exemplar defensabilidade do local.

Os materiais são escassos, tendo sido recolhida cerâmica manual e de roda, vários fragmentos de parede de ânforas, de produção bética, elementos de mós manuais de "vaivém", um cossoiro e uma fíbula de bronze. O material de construção é praticamente ausente, tendo sido apenas identificada uma tegula. Os fragmentos de escória são bastante frequentes, principalmente na encosta Sul.

Numa recente visita ao local tivemos a oportunidade de observar, na encosta poente do esporão, uma expressiva concentração de fragmentos cerâmicos, designadamente exemplares estampilhados e um cossoiro.
O esporão é coroado por um curioso afloramento em “V” (o “vértice” do assentamento), apresentando um sugestivo conjunto de gravuras de época recente, que nos remetem para um legado de lendas sobre uma moura encantada associada ao local. A linguagem (porno)gráfica poderá ter encontrado suporte na natureza da própria protuberância geológica que, além da forma em "V", apresenta uma "brecha" para a imaginação!
Fontes:

Carta Arqueológica do Alandroal 
(Calado, M., 1993, p, 61)

Castro de Castelo Velho de Lucefecit

Alandroal Terena São Pedro
Povoado fortificado, com cerca de 1 ha de área útil, ocupado em diferentes épocas desde o III milénio a.C., até ao século X da nossa Era. Tudo indica, efectivamente, que houve longos períodos de abandono, dos quais o mais evidente, no estado actual da investigação, foi o que decorreu entre o final da Idade do Ferro e a ocupação Islâmica (cerca de mil anos).

O sítio apresenta uma defensabilidade excepcional, uma vez que o acesso era viável apenas pelo lado Oeste, por um caminho estreito, de cuja utilização se conservam traços na rocha xistosa; os outros lados contam com vertentes muito inclinadas, delimitadas na base pelo Rio Lucefecit e por um pequeno afluente. Em contrapartida, a visibilidade sobre o território envolvente é relativamente escassa, uma vez que em redor do povoado se elevam cabeços com maior altimetria. No terço superior do declive, em todo o perímetro do povoado, observa-se um talude onde afloram vestígios relativamente bem conservados de muralhas de xisto. O aparelho defensivo apresenta diversas fases construtivas, com técnicas e plantas bastante diversificadas.

No sopé da vertente Norte abre-se uma pequena galeria irregular, artificialmente afeiçoada, conhecida como a "Casa da Moura"; pode tratar-se quer de uma sondagem de mineração quer de um espaço ritual, com paralelos nos “santuários” etnográficos frequentes na região, cuja caracterização comum é a existência de uma cavidade na rocha e que a tradição popular atribui sistematicamente às mouras encantadas.

Numa pequena elevação coroada por uma formação rochosa de forma vagamente antropomórfica, junto da presumível entrada principal do povoado, regista-se a presença de cerâmicas, escórias de fundição e restos de estruturas. A tradição popular considera este local, denominado “Pedra do Charro”, a sepultura de um bandoleiro lendário, o Charro, enterrado com todas as suas riquezas. De facto, pode tratar-se de uma área se habitat marginal, nomeadamente o local das actividades metalúrgicas, numa determinada época do povoamento. Pode tratar-se também de uma necrópole relacionada com o povoado, o que daria algum fundamento à tradição local.
"Pedra do Charro" 
Acesso
José Leite de Vasconcellos, publica em 1895, no Vol. I de O Arqueólogo Português, (p. 212-213), uma breve notícia onde descreve com algum pormenor o “Castelo Velho” após a sua visita ao local – O insigne arqueólogo não deixou de relacionar este povoado e o do Castelinho com o santuário de Endovélico em São Miguel da Mota, localizado a cerca de 1.500 m em linha recta, admitindo que «esse santuário pertenceria a uma das referidas povoações, ou a ambas» (Vasconcellos, 1885, p. 213).

O Castelo Velho foi classificado como Monumento Nacional por decreto de 16.06.1910, sendo o único sítio arqueológico classificado no concelho do Alandroal.

 in Carta Arqueológica do Alandroal 
(Calado, M., 1993, p, 63-64)

Em suma, e por outras palavras:

Está à face do Lucefecit
Um castelo feito pelos Mouros
A muita gente lhe parece
e dizem que há ali tesouro

Tem mais de cinquenta metros de altura 
E o cimo forma quadrado
Feito em terra bem rampado
E com mais ou menos de largura
Isto é verdade pura
Não é coisa que alguém dissesse
De muito lado aparece
Não sou só eu que o digo
Mas há um monumento antigo
À face do Lucefetit

Aí uns cem passos ou mais
Tem uma pedra ao lado
Onde o Charro foi sepultado
Ou os seus restos mortais
Vieram da Câmara os sinais
Essa notícia nos poram
Dizem que eles é que foram
Que está escrito na história
Mas aqui está de memória
Um castelo feito pelos Mouros

A muitas pessoas que ali vão
Mete o seu respeito e medo
Está um buraco num rochedo 
Onde era a habitação
Viveram debaixo do chão 
Que é a demostra que parece
É caso que ninguém conhece
Para que foi a fortaleza
Mas dizem que há ali riqueza
E a muita gente lhe parece

Décimas dedicadas ao Castelo Velho
(in Carta Arqueológica do Alandroal 
Calado, M., 1993)
Noutra época mais atrasada
A homens antigos ainda ouvi
Diziam que aparecia ali
Uma moura encantada
Mas quando esteja a ser tirada
Diz que aparece um preto touro
Onde está o diamante e o ouro
Só se tira à meia noite 
Mas não há ninguém que se afoite
E dizem que há ali tesouro

Dionísio António Rita - poeta popular
"Casa da Moura"
Na visita ao Castelo Velho ainda pode contar com um outra preciosidade, desta feita etnográfica: o Moinho do Setil
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Rocha da Mina

Alandroal | Terena | São Pedro

Santuário da Idade do Ferro, "talhado" num expressivo esporão xistoso de vertentes abruptas, com cerca de 12 metros de altura. O rochedo impõe-se altivo na Ribeira de Lucefecit, obrigando-a a contornar a sua dureza, produzindo um meandro a caminho do Guadiana. Na estrutura geológica foram talhados degraus, construídos muros e organizados pavimentos, elementos recorrentes em santuários pré-romanos, alguns dos quais romanizados, sendo comummente interpretados enquanto altares destinados a sacrifícios.

Presumivelmente, o "rochedo (con)sagrado" da Mina terá sido palco de cultos dedicados ao deus pré-romano Endovellicus. Em época romana, esta divindade indígena acaba por integrar o panteão dos deuses hispânicos, concorrendo em importância com o próprio Iupiter. Um dos indícios desta inversa aculturação encontra-se no cume do outeiro de São Miguel da Mota, a cerca de 3 km da Rocha da Mina, onde terá sido edificado um templo romano, em mármore branco, no qual os romanos (e os indígenas romanizados) cultuaram o deus local Endovélico, num verdadeiro fenómeno de "transladação" do culto de um santuário natural para um santuário construído.



No período estival de 2011-2012, o arqueossítio foi alvo de escavações dirigidas pelo arqueólogo Rui Mataloto. Os trabalhos têm vindo a revelar uma área habitacional na plataforma inferior, junto do santuário, com cinco compartimentos estruturados entre si e delimitados, a nascente, pela presença de um afloramento rochoso e/ou de uma muralha. Na plataforma superior (no santuário propriamente dito) escavou-se os restos de estratigrafia existentes sobre a rocha e o interior do "poço". Os vestígios de ocupação remetem para cronologias da 1.ª e 2.ª Idade do Ferro e do Período Romano Republicano. O conjunto artefactual permitiu ainda atestar a absoluta contemporaneidade entre as ocupações documentadas em ambas as plataformas. 

Recorde-se que em 1995 o sítio recebeu as primeiras sondagens arqueológicas dirigidas por Manuel Calado, intervenção que permitiu identificar a zona de carácter habitacional, complementar à área especificamente ritual do santuário.