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Arrábida: episódios da investigação arqueológica regional (do séc. XVIII ao séc. XXI)

SOARES, R. (2014) – Arrábida: episódios da investigação arqueológica regional (do séc. XVIII ao séc. XXI). In Al-Madan Online (ISSN 2182-7265), n.º 19, tomo 1, p. 113-122.

Resumo
Breve síntese da história da investigação arqueológica produzida no território da serra da Arrábida (municípios de Setúbal, Sesimbra e Palmela), desde o século XVIII ao século XXI. O autor destaca também algumas notas biográficas relativas aos seus protagonistas, e introduz anotações bibliográficas a propósito dos textos publicados.
Palavras chave: Arqueologia; História da Arqueologia portuguesa; Análise documental; Arrábida; Sado.

Abstract
Brief summary of the history of archaeological research on the Arrábida mountain range territory (municipal councils of Setúbal, Sesimbra and Palmela), from the 18th to the 21st century. The author also includes biographical notes about those involved and bibliographic notes about the published texts.
Key words: Archaeology; History of Portuguese Archaeology; Document analysis; Arrábida; Sado river.

Résumé
Brève synthèse de l’histoire de la recherche archéologique produite sur le territoire de la Serra da Arrábida (communes de Setúbal, Sesimbra et Palmela), du XVIIIème au XXIème siècle. L’auteur met en avant également certaines notes biographiques en lien avec ses protagonistes, et introduit des annotations bibliographiques au sujet des textes publiés. Mots clés: Archéologie; Histoire de l’Archéologie portugaise; Analyse documentaire; Arrábida; Sado.



Convento do Vale do Solitário


Esquecido pelo tempo e envolvido pela mata coberta.
Aqui ficam algumas fotos:

Entrada

Restos de uma voluta

Vestígios de um "jardim romântico"

Contraforte

Muro de contenção da plataforma de implantação do edificado

Cavidade natural apresentando entrada estruturada

Micro-gour

Morcego (do) solitário

Materiais

Recentemente identificado por uma equipa de prospecção da Carta Arqueológica de Setúbal, o local foi alvo de caracterização arqueológica. No seu conjunto, as evidências parecem apontar para uma ocupação religiosa, um provável cenóbio associado ao complexo conventual da Arrábida, entretanto desocupado, esquecido e engolido pela Mata do Solitário. Sucede-se uma investigação bibliográfica, no sentido de identificar vestígios históricos que permitam alcançar uma melhor compreensão deste sítio.

Gruta do Médico




A Gruta do Médico localiza-se na meia encosta do Monte Abraão, no topo do qual se elevam as iconográficas três cruzes da Arrábida, na vertente norte do Vale do Solitário (mata coberta) e em pleno “coração” da Serra da Arrábida (Setúbal). A entrada vertical é feita por uma estreita abertura no chão do seu átrio de entrada, por onde se desce cerca de 3 metros. Desenvolve-se na cota dos 210 metros, em unidades sedimentares do Jurássico, seguindo uma progressão semivertical, de orientação oeste-este, com um desnível de cerca de 21 metros de profundidade. O desenvolvimento dá-se ao longo de uma junta de estratificação, organizada em galerias sobrepostas em três patamares, ricas em fenómenos de concrecionamento, numa área total de aproximadamente de 174 m².
Terá sido descoberta por um pastor por volta de 1856, sendo referida, pela primeira vez, nofolhetim Gazeta Setubalense nº 218, de 27 de Junho de 1873, por Manuel Maria Portela, onde se pode ler: «El logar eminente, e não distante do vale que chamam da Mata Coberta, por ser de espessura impenetrável aos raios de sol, vêm-se ainda os restos da parede que resguardam o concavo da rocha onde habitou um médico, do qual a tradição nos refere apenas que foi notável pelos seus conhecimentos científicos, e que ali se recolheu, depois de haver percorrido vários países em dilatadas viagens». Em 1897, Joaquim Rasteiro publica uma breve descrição da cavidade no Arqueólogo Português: «a lapa do Médico, na meia encosta do monte Abraão, á esquerda do caminho que vae da fonte do Solitário para o mosteiro pelo valle de S. Paulo. Tinha formosas estalactites e estalagmites, que foram destruidas na maioria pelos visitadores. A parte superior foi habitação de um cenobita; o subterrâneo foi descoberto ahi por 1850 devido á queda de uma pedra, que fechava a entrada» (Rasteiro, 1897, p. 3).
O átrio de entrada ainda conserva vestígios de uma antiga construção adossada à rocha (a estrutura de pedra seca das ombreiras da porta e os arranques de uma cobertura alpendrada), provavelmente de função religiosa, tendo em conta a proximidade da lapa-capela de Santa Margarida e do Convento da Arrábida e por ali passar um secular caminho que o liga ao ermitério de El Cármen. De assinalar, também, a proximidade ao Portinho e à Serra da Cela, a cerca de 1 km.

Em recentes visitas ao local, no âmbito da Carta Arqueológica de Setúbal, foi possível registar, além de diversos vestígios de época medieval/moderna, e de alguns fragmentos de sílex talhado, dois fragmentos de cerâmica negra brunida, não ornatados, e que apesar de não proporcionarem colagem, parecem corresponder ao mesmo recipiente. Curiosamente, estes fragmentos encontravam-se bastante distanciados entre si: um no interior da cavidade, em excelente estado de conservação; o outro no exterior, mais erodido, mas que pelo facto de ainda conservar brunimento e brilho supõe uma mobilização relativamente recente. Recorde-se, para o efeito, que a referida cavidade, embora nunca tenha sido alvo de estudos arqueológicos, é bem conhecida localmente, recebendo frequentes visitas, nem sempre de visitantes com sensibilidade arqueológica e espeleológica. Além destes dois exemplares brunidos, foram observados outros fragmentos de cerâmica manual, designadamente um fundo plano.
No interior da gruta, na base da entrada vertical, abre-se um estreito recanto, colmatado por dejecções sedimentares que o preenchem quase na totalidade. Depois de um apertado rastejamento, foi identificado um fragmento de cerâmica manual (bordo simples), associado a duas vértebras (lombares) e alguns dentes humanos. Estes achados constituem um forte indício de uma necrópole, que tendo em conta o registo artefactual associado e os arqueossítios da envolvente, poderá pertencer ao Bronze Final. A utilização desta cavidade enquanto gruta-santuário também fica em aberto, podendo tratar-se de um caso de dupla função: necrópole e santuário rupestre.


A Arrábida no Bronze Final - a Paisagem e o Homem

Ricardo Soares

(2012)

Dissertação de Mestrado em Arqueologia
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa


Fotografia de Ricardo Soares & Sara Navarro

A Fenda da Arrábida


A Fenda constitui um “geomonumento” de rara beleza natural, há muito conhecido, mas sem informação arqueológica publicada (no prelo). A verticalidade e dureza das suas paredes tem proporcionado uma verdadeira Meca para os amantes da escalada, que equiparam aquela arquitectura natural com várias vias de diferentes graus de dificuldade.

Como o próprio topónimo indica, trata-se de um acidente tectónico, que se abre ao longo de aproximadamente 700 metros na encosta sul da Serra da Arrábida, sobranceiro e paralelo à linha de praia do Portinho. Este fenómeno terá sido provavelmente causado pela orogenia que verticalizou aquela junta de estratificação, ao ponto de a abrir numa grande brecha onde se desenvolveu um submundo de maravilha e viçosa luxúria, na qual a luz se perde numa penumbra de verdes e cambiantes de terra e argila.

A acção erosiva das águas orgânicas corroeu aquele espaço num labiríntico complexo de ocos propícios à exploração humana, proporcionando, assim, uma potencial área de habitat e abrigo, com diversos recantos apelativos, também, para uma utilização ritual. Porém, a sua prospectabilidade é de manifesta dificuldade, pelo facto de a área se desenvolver como uma imensa bacia de dejecção sedimentar, culminada por uma espessa camada de manta morta em constante produção. Se, por uma lado, os sedimentos escondem por completo os presumíveis vestígios arqueológicos, por outro, selam-nos, preservando de forma exemplar a sua latente informação, a aguardar uma oportuna intervenção de sondagem. Ainda assim, foram identificados alguns fragmentos de cerâmica manual, e um grande búzio (“buzina” – Charonia lampas) depositado numa pequena cavidade aberta num caos de blocos.

Tendo em conta as singulares particularidades deste local e a sua insinuante integração na rede de povoamento loco-regional do Bronze Final, destacando-se a “umbilical” proximidade e intervisibilidade com o povoado da Serra da Cela (a escassos 500 metros), será admissível atribuir-lhe uma funcionalidade de acessório abrigo sazonal, de apoio, controlo e defesa do porto subjacente, além de eventuais atribuições rituais. Outras cronologias também devem ser tidas em conta. Recorde-se que a área do Portinho da Arrábida tem vindo a documentar uma sequência de ocupação praticamente ininterrupta, a que o sítio da Fenda não terá certamente passado despercebido.

Outros sinais de ocupação...

A Arrábida no Bronze Final - a Paisagem e o Homem
Ricardo Soares
(2012)
Dissertação de Mestrado em Arqueologia
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa