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Projecto MAO - Menires do Algarve Ocidental

«(...) Na classe dos monumentos megalithicos [1] estão grupadas as mais typicas construcções da architectura prehistorica, formadas de grandes pedras toscas, comprehendendo os menhirs, alinhamentos, cromlecks e dolmens. O menhir é uma unica pedra tosca erguida a pino e cravada no solo, de fórma variavel e de diversas dimensões. D'estas pedras monumentaes consta existirem muitas in situ em todo o reino, mas ainda ninguem tratou de inventarial-as e descrevel-as [2] (...)».

«(...) No Algarve, já muito depois das explorações que dirigi por incumbencia do governo, recebi noticia de haver no cabeço de uns serros da freguezia de Vaqueiros algumas pedras altas, cravadas no solo e verticalmente erguidas. Não tenho informações de confiança a este respeito e por isso, embora as que recebi me possam inspirar a presumpção de haver alli um ou mais cromlecks, não ouso affirmar cousa alguma. Devo porém desde já indicar na freguezia serrana de Vaqueiros o elemento neolithico, em presença de uma collecção, que em seu logar descreverei, de silices lascados e de interessantes instrumentos de pedra polida alli achados em excavações ruraes, pertencentes ao sr. Antonio de Paulo Serpa, empregado na direcção das obras publicas do districto de Faro (...)».




[1] Diz-se ser este termo derivado do prefixo mega, que significa grande, e de lithos, pedra.

[2] Depois de escripto este capitulo, veiu á minha mão um trabalho impresso em 1881 na tyographia Lallemant, intitulado : Relatorio e mappas ácêrca dos edifícios que devem ser classificados monumentos nacionaes, apresenlados ao governo pela real associação dos architectos civis e archeologos porluguezes, em conformidade da portaria do ministerio das obras publicas de 24 de outubro de 1880. Este relatorio, servindo de resposta á portaria, dividiu os monumentos nacionaes (?) em seis classes, e na ultima registrou os prehistoricos. 

Em todo o reino ficaram pois indicados trinta e tres logares com dolmens ou antas, tres com menhirs e dois com mamunhas. Nada mais! Estão portanto officialmente inventariados tres menhirs e todos no concelho de Villa Velha do Rodam, um em Fantel, outro em Monte Fidalgo e o terceiro na ribeira de Alcafalla.

Por Sebastião Philippes Martins Estacio da Veiga
VEIGA, E. da (1886) – Antiguidades Monumentaes do Algarve - Tempos Prehistoricos, vol. I. Lisboa: Imprensa Nacional.

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«(...) Um menir é um monumento constituído por um monólito, mais ou menos oblongo, cravado verticalmente no solo e com dimensões muito variáveis. A matéria prima no que diz respeito aos menires portugueses, é constituída exclusivamente por granitos ou rochas granitóides, excepto os do Algarve, nos quais foram sistematicamente utilizados os calcários ou o grés (...)».

Por Manuel Calado
CALADO, M. (1993) – Menires, alinhamentos e cromlechs. In: MEDINA, J. (ed.) - História de Portugal, vol. 1 (coordenado por Victor S. Gonçalves), p. 294. Lisboa: Ediclube.


Inventário de Menires do Algarve:

Abrutiais (Silves)
Adreneira (3) (Vila do Bispo)
Afonso Vicente 1 (3) (Alcoutim)
Afonso Vicente 2 (4) (Alcoutim)
Alcalar 1 (Portimão)
Alcalar 4 (Portimão)
Alfarrobeira (Silves)
Almarjão (2) (Silves)
Amantes I (17) (Vila do Bispo)
Amantes II (10) (Vila do Bispo)

Areia das Almas (11) (Lagoa)

Arneiros (Vila do Bispo)
Aspradantas (3) (Vila do Bispo)
Barão de S.Miguel (Lagos)
Barradas (Vila do Bispo)
Bem Parece (Vila do Bispo)
Benagaia (Silves)
Bensafrim (Lagos)
Budens (Vila do Bispo)
Caramujeira (26) (Lagoa)
Carriços (5) (Vila do Bispo)
Casa do Francês (6) (Vila do Bispo)
Castanheiro (4) (Lagos)
Cerro das Alagoas (Loulé)
Cerro das Pedras (3) (Loulé)
Cerro do Camacho (5) (Vila do Bispo)
Colinas Verdes (Lagos)
Cruzinha (Portimão)
Cumeada (Silves)
Ferrel de Baixo (Lagos)
Ferrel de Cima 1 (Lagos)
Figueira (8) (Vila do Bispo)
Figueiral (8) (Lagos)
Gasga (6) (Vila do Bispo)
Gregórios (Silves)
Guadalupe (Vila do Bispo)
Ingrina (3) (Vila do Bispo)
Ladeiras (2) (Vila do Bispo)
Lameira (Portimão)

Lomba da Góia (1) (Vila do Bispo)
Lombos (3) (Lagoa)
Maranhão Novo (Lagos)
Marmeleiros (3) (Vila do Bispo)
Marreiros I (3) (Vila do Bispo)
Marreiros II (4) (Vila do Bispo)

Milrei (21) (Vila do Bispo)
Monte Alto (Lagos)
Monte Branco (Silves)
Monte da Pedra Branca (Silves)
Monte de Roma (Silves)
Montes Juntos (Lagos)
Morgados (Vila do Bispo)
Odiáxere (Lagos)

Padrão (15) (Vila do Bispo)
Palmares (4) (Lagos)
Pedra Branca (Lagos)
Pedra Escorregadia (3) (Vila do Bispo)

Pedra Moirinha (Portimão)
Pedras Ruivas (Loulé)
Pedras Ruivas (Portimão)
Penedo Gordo (Silves)
Pinheiral (2) (Lagos)
Pontais (Silves)
Portela da Vaqueira (Portimão)
Portela do Padrão (4) (Lagos)
Quinta da Queimada (7) (Lagos)
Rocha (2) (Lagos)
Rocha Branca (Silves)
Rochedo (Lagos)
S.Rafael (2) (Albufeira)
Sabrosa (4) (Lagos)
Salgadas (Lagos)
Santo António de Baixo (2) (Vila do Bispo)
Santo António de Cima (Vila do Bispo)
Serra da Borges (4) (Vila do Bispo)
Torre (2) (Lagos)
Torrejão Velho (Silves)
Três Bicos (Portimão)
Vale da Lama (Silves)
Vale de França (Portimão)
Vale de Gato de Cima (3) (Vila do Bispo)
Vale de Oiro (2) (Vila do Bispo)

Velarinha (Silves)

(inventário em actualização)

Sado-Meso


O projecto SADO-MESO tem como principal objectivo o estudo das últimas comunidades de caçadores-recolectores e dos processos de implantação dos primeiros grupos agro-pastoris, no baixo vale do Sado. Este projecto contempla diferentes frentes de trabalho, a desenvolver por uma equipa transdisciplinar, nomeadamente: estudo e publicação das antigas colecções arqueológicas, antropológicas e faunísticas, recolhidas por Manuel Heleno, ainda inéditas, depositadas no MNA; realização de intervenções arqueológicas no terreno – já iniciadas no concheiro das Poças de S. Bento e no concheiro do Cabeço do Pez; reconstituição da paleopaisagem e da antiga dinâmica do estuário do Sado, com particular destaque para as vertentes ambiente e recursos.


Mariana Diniz e Pablo Arias

Gruta da Furninha | Peniche

Aberta nas falésias calcárias do rebordo Sul da península de Peniche, cerca de 15 metros acima do actual nível médio do mar, a Gruta da Furninha foi integralmente escavada por Nery Delgado (Comissão Geológica) por altura do Congresso de Lisboa de 1880.

A cavidade cársica desenvolve-se por cinco áreas distintas: o átrio exterior, onde aflora a rocha de base; o corredor de entrada, com uma altura superior a 4 metros e uma largura média de cerca de 3,5 metros, onde a espessura dos sedimentos aumentava gradualmente em direcção ao interior da gruta, atingindo cerca de 1 metro na ampla sala central; a sala NW, separada da anterior por um estrangulamento sifonado bastante marcado; o corredor em cotovelo que da sala central se dirige para nascente e em cuja base se abre um poço, que após escavado o seu depósito revelou uma sequência sedimentar com cerca de 11 metros de potência. A base deste poço deve comunicar com uma pequena galeria que se abre na base da escarpa, ao nível do mar, onde actualmente ainda é possível observar uma brecha com indústria e fauna plistocénica.

Nery Delgado identificou e descreveu dois grandes horizontes estratigráficos: o "entulho superior" – uma necrópole neo-calcolítica com restos ósseos de 140 indivíduos (Neolítico Antigo e Neolítico Final/Calcolítico); e as "areias quaternárias" nas quais se registaram abundantes vestígios faunísticos e artefactos atribuíveis ao Acheulense e Paleolítico Médio. Entre os materiais do "entulho superior" foi isolada uma ponta Gravettese e uma folha de loureiro Solutrense. A generalidade dos foliáceos, atribuídos por alguns autores ao Solutrense, corresponde, na realidade, a punhais líticos do Neolítico.


Entrada/átrio exterior

Corredor de entrada

Sala central e estrangulamento sifonado
Sala central e corredor em cotovelo

Poço escavado por Nery Delgado
Cerâmicas do Neolítico Antigo
Liks:


the mind in the cave

Gruta de Ibn'Ammar | Lagoa


Furnas dos Mouros, Grutas da Mexilhoeira ou de Estombar
Mexilhoeira da Carregação | Lagoa | Algarve

Publicada pela primeira vez em 1850 por Charles Bonnet – Algarve (Portugal): description géographique et géologique de cette province – trata-se de uma gruta situada na estuarina margem esquerda do rio Arade, a cerca de 4 km de Portimão, revelando vestígios arqueológicos de uma ocupação humana compreendida entre o Paleolítico Médio e o período medieval. É admissível considerar uma provável exploração sagrada durante o Bronze Final – gruta-santuário.
O topónimo “ibn’Ammar” remete-nos para o poeta árabe Abú Bakr Mubammad ibn’Ammar, nascido em 1031 em Sannabus (Estombar?), perto de Silves. Segundo a tradição, terá contribuído com poemas para as mil e uma noites.
Aberta em calcários do Jurássico, a gruta desenvolve-se ao longo de um complexo sistema cársico, sendo revelada por várias entradas: um sifão vertical, exposto numa depressão a cerca de 10 metros acima do nível médio das águas do Arade; e, praticamente ao nível do rio, duas condutas forçadas tubulares, que nos conduzem a diversas salas bem marcadas pela hidrogénese, algumas delas inundadas pelo fluxo das marés, apresentando nascentes e lagos.
foz do Arade | Portimão

entrada inferior - duas condutas forçadas

the hidden face of the cave
The Mind in the Cave
lagos interiores | espelhos de água
Praia-mar da lua cheia de 19 de Março - marés-vivas
(Primavera grutesca)
cathedral portal
Arrabidensis Portimonensis
alguns materiais observados
(Bronze Final/Idade do Ferro)
Grutas-santuário

As grutas do Maciço Calcário Estremenho, das Penínsulas de Lisboa e Setúbal, como do Algarve, têm vindo a evidenciar espólios correspondentes ao Bronze Final, que pelo facto de não se encontrarem associados a vestígios antropológicos, excluem a classificação de espaços funerários. As evidências também não nos permitem atribuir uma função habitacional, pois estamos perante cerâmicas, em muitos casos, de alta qualidade: pastas bem depuradas, paredes finas, formas elaboradas e elegantes, superfícies brunidas ou espatuladas, algumas apresentando ornatos brunidos com complexas gramáticas geométricas bicromáticas. Acresce o facto de estas cerâmicas se encontrarem, amiúde, associadas a outros materiais de carácter especial, designadamente artefactos metálicos.
Trata-se de materiais «ritualmente depositados nos espaços subterrâneos, em alguns casos junto de ocorrências de água ou de mananciais, no quadro de actividades sócio-religiosas. Estas estariam conotadas com a crença na presença, em tais lugares, de espíritos ou de divindades de carácter aquático e/ou ctónico» (Gomes e Calado, 2007, p. 150). Ainda hoje, crenças populares atribuem a estes mananciais aquíferos um poder medicinal, pelas propriedades salutíferas, ou mesmo milagrosas, das suas águas.
Por conseguinte, resta-nos, para estes vestígios cavernículas, uma classificação votiva – santuários subterrâneos: «onde os homens procuravam o contacto com o transcendente e as forças da fertilidade, capazes de originarem e de manterem a vida, ou de reproduzirem a cultura, tornando-se verdadeiras grutas-santuário, continuaram longa tradição que remonta, pelo menos, ao Paleolítico Médio, quando ali se desenvolveram os primeiros enterramentos e outras práticas de carácter ritual» (ob. cit., p. 150).
O endocarso figuraria, assim, o submundo uterino da mãe natureza, da terra geradora de vida e transformadora pela morte, um umbilical espaço iniciático de eterno retorno onde as águas subterrâneas simbolizavam um poder transcendental de comunicação/infiltração com o “além”. Estes espaços profundos, escuros, geralmente húmidos, exíguos e ornamentados por formações cársicas de grande beleza, documentam, desde a Pré e Proto-História, práticas magico-religiosas, numa aproximação simbólica às forças da Natureza. Locais «onde existiam os mistérios do nascimento e da morte, da génese de deuses e heróis mas, também, da ligação com o transcendente e o conhecimento superior» (ob. cit., p. 154). Esta ideia encontra-se bem expressada nas grutas naturais, nas grutas artificiais, nas antas e nos tholoi – o mesmo simbolismo em diferentes opções espaciais.
O polimorfismo cultual do final da Idade do Bronze, em particular no actual território nacional, comummente observado na grande diversidade de santuários rupestres, quer em grutas e abrigos, quer ao ar livre, e materialmente perceptível por meio de gravuras, pinturas e depósitos votivos, continua a remeter-nos para rituais de adoração às primordiais ingénitas forças da natureza, a par dos prestados aos antepassados – os guerreiros e heróis civilizadores figurados nas estelas funerárias do Sul de Portugal, associados a deuses ameaçadores e a uma iconografia solar, para muitos autores de origem próximo-oriental (Gomes, 1990). Recorde-se que o culto aos antepassados civilizadores/fundadores ainda é uma realidade bem documentada pela historiografia romana – o genius do pater familias.
Se as primeiras sociedades camponesas associaram as grutas a cultos dedicados a divindades femininas – a deusa-mãe – provavelmente transfiguradas por meio de formações calcíticas como colunas e estalagmites; na Idade do Bronze emerge um novo modelo cultual, sacralizando divindades ctónicas, masculinas e guerreiras, secundarizando o espírito feminino em imagens de deusa-consorte. Nesta época, os locais sagrados expandem-se além das grutas, numa procura do poder transcendente dos marcos paisagísticos, preferencialmente altos.
Recorde-se que as grutas-santuário constituem, durante o II e o I milénios a.C., um fenómeno de largo espectro em todo o Mediterrâneo, particularmente na Grécia. Refiro-me a pequenos santuários subterrâneos como a gruta do monte Ida (Creta); a gruta de Akraios (Tessália); a gruta da acrópole de Atenas; a gruta de Pan (Maratona); a gruta de Hermes (Patsos); a gruta de Kato Akrotiri (Amorgos) (Gomes e Calado, 2007, p. 154).
No contexto nacional, e até à data, tem sido a região da Península de Lisboa a registar maior número de cavidades subterrâneas contendo materiais do Bronze Final, particularmente cerâmicas, jazidas que na sua maioria, e pelo já referido, constituem potenciais santuários cavernículas. Mário Varela Gomes e David Calado referem uma série de prováveis santuários cársicos correspondentes ao Bronze Final da região de Lisboa (Gomes e Calado, 2007, p. 152): a gruta da Ponte da Laje, Oeiras (Cardoso e Carreira, 1996); as grutas do Poço Velho, Cascais (Carreira, 1990-1992); a gruta do Correio-Mor, Loures; o Fojo dos Morcegos, Assafora, Sintra (Marques, 1971; Marques e Andrade, 1974); a gruta do Cabeço do Castelo, Maceira, Vimeiro, Torres Vedras (Zbyszewski e Viana, 1949); a Cova da Moura, Torres Vedras (Spindler, 1981); o abrigo das Bocas, Rio Maior (Carreira, 1994).
Contudo, também a península de Setúbal/Arrábida tem identificadas algumas jazidas do Bronze Final em grutas (santuário?), com deposições de provável carácter ritual. À Lapa do Fumo e à Lapa da Furada poderá vir a acrescentar-se a Gruta do Médico, suspeição a carecer de confirmação por meio de futuras abordagens de sondagem/escavação arqueológica. Recorde-se que a região da Arrábida tem sido alvo, desde 2007, de uma intensa e sistemática investigação arqueoespeleológica, na sequência dos projectos concelhios da Carta Arqueológica de Sesimbra e da Carta Arqueológica da Arrábida/Setúbal, sendo de expectar novos sítios e mais informação acerca deste tema.
À escassez quantitativa de dados para uma correcta aferição da natureza deposicional nestes contextos arqueológicos, acresce a pobreza ou total ausência de relatos e documentação publicada sobre as condições das jazidas identificadas e dos respectivos acervos artefactuais, com a devida excepção para o meritório contributo de Eduardo da Cunha Serrão na Lapa do Fumo.


Dissertação de Mestrado apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
Ricardo Soares
2012-2013

Fotografia de Ricardo Soares & Sara Navarro