Museu Jorge Vieira - Casa das Artes | Beja
Do Magma às Estrelas em Alcalar
No passado dia 21 de Setembro (2013), no âmbito das Jornadas Europeias do Património, os monumentos megalíticos de Alcalar receberam um conjunto de actividades organizadas pelo Museu de Portimão, entre as quais uma reedição da exposição Do Magma às Estrelas de Sara Navarro, concebida originalmente para as ruínas romanas de Milreu, desta feita em versão "instalação".
Pottery traditions of the Pattanam region - Kerala | India
Formas de Terra e Fogo | Earth and Fire Shapes

















As esculturas de Sara Navarro, (re)criadas pela arte do fogo, transmitem algo de primitivo, pré-histórico ou arqueológico. Algo que evoca a arte e a cultura de outros tempos, de outros lugares, algo que nos desperta os ecos de uma terra antiga.
A dualidade de referências, entre um passado remoto e a contemporaneidade, funde-se num trabalho de síntese, em que as esculturas funcionam como metáfora que opera no deslocamento entre o sentido histórico das suas referências e o imaginário da autora.
“No meu trabalho exploro a relação entre a mão e a matéria, no sentido do ‘saber fazer’ artesanal. Procuro entrar nos gestos dos produtores ancestrais, reproduzindo-os, sentindo-os como meus. Pelo poder do fogo, para transformar a suave e maleável argila num duro e resistente material, invoco as práticas pré-históricas da produção de artefactos cerâmicos e, nesse sentido, conoto a prática da escultura com um valor cultural primordial. A terra(argila), pela sua maleabilidade, permite-me explorar o gesto que, associado a uma substancialidade terrestre, está na base da criação de esculturas ‘arqueologizantes’, gérmenes da época atual.”
(Sara Navarro)
Partindo de realidades perdidas, as formas criadas pelas mãos da escultora põem o tempo presente em comunicação com passados remotíssimos. Pela transfiguração surgem modelos primordiais, reconhecíveis, ainda que com novas simbologias. Artefactos com significados sempre múltiplos, com sentidos construídos e reconstruídos...

do MAGMA às ESTRELAS















Do magma às estrelas: elogio das coisas simples e antigas
por Manuel Calado
Fogo, ar, água, terra; terra, água, ar, fogo.
Era nesses caldeirões mágicos que nasciam as bebidas sagradas, catalizadores privilegiados das viagens extáticas aos mundos dos deuses e dos antepassados.
Os potes, como obras exclusivamente humanas, tornaram-se, em muitas culturas, metáforas privilegiadas do próprio homem.
Materiais transformados pelo Homem e que serviam para transformar os alimentos, preparando-os para, no corpo humano, participarem nessa misteriosa alquimia de transformar a matéria no fogo dos sonhos.
Foram, mais tarde, as matrizes dos crisóis. O metal nasce na terra e manifesta-se através do fogo, em peças de cerâmica. Hierofanias.A cerâmica neolítica era uma ferramenta de magia criada por artes mágicas. Era, por isso, certamente, um meio de expressão artística.
A forma dos objetos era já, só por si, uma manifestação de criatividade, carregada de significados e evocações. Mas, além disso, devido à sua plasticidade, a cerâmica era um suporte particularmente apto para receber grafismos.
A cerâmica, nesse sentido, era equivalente à arte rupestre.E a cerâmica não é só escultura: desde as suas origens mais remotas, a gravura e a pintura fazem parte dela.
Sara Navarro percorreu um longo caminho: recuou 7000 anos até ao tempo em que a cerâmica era uma tecnologia de ponta. Uma conquista tecnológica. Partindo de uma realidade perdida, de que apenas podemos suspeitar os contornos, ela propôs-se transfigurar os potes, reencontrando, nesse processo, em que o presente e o passado se interpenetram, as emoções perdidas do protagonismo da terra.
Criando corpos inusitados, repensados, reinventando, num quadro novo, as velhas novidades neolíticas. Objetos arquetípicos, reconhecíveis, mas depurados das antigas funcionalidades e simbologias.
‘Arte-factos’. Com significados sempre múltiplos, com sentidos construídos e reconstruídos...





















