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Recursos, vias e trânsito na Arrábida do Bronze Final - a "rota do sal" e a "síndrome do marinheiro"


SOARES, R. (2013) – Recursos, vias e trânsito na Arrábida do Bronze Final - A “rota do sal” e a “síndrome do marinheiro”. In Al-Madan Online (ISSN 2182-7265), n.º 18, tomo 1, p. 45-50.
Resumo
Proposta de interpretação dos recursos e itinerários disponíveis para a circulação de pessoas e de bens no território da Serra da Arrábida (Setúbal), na última fase da Idade do Bronze. Com os dados disponíveis para a zona e para as bacias hidrográficas do Sado e do Tejo, entendeu-se ainda pertinente integrar a questão da salicultura pré-romana na agenda da investigação.
Palavras chave: Idade do Bronze; Serra da Arrábida; Povoamento; Vias; Sal.

Abstract
An interpretation of the available resources and itineraries for the circulation of people
and goods in the Serra da Arrábida (Setúbal) at the end of the Bronze Age. The author presents the data available for the Sado / Tagus River basin area. He also includes in his research and discussion the pre-Roman salt processing theme.
Key words: Bronze age; Serra da Arrábida; Settlement; Roads; Salt.

Résumé
Proposition d’interprétation des recours et itinéraires disponibles pour la circulation des personnes et des biens sur le territoire de la Serra da Arábida (Setúbal), durant la dernière phase de l’Age du Bronze. En plus des données disponibles sur la zone et sur les bassins hydrographiques du Sado et du Tage, on a également jugé judicieux d’intégrer la question de la saliculture préromaine dans l’agenda de la recherche.
Mots clés: Âge du Bronze; Serra da Arrábida; Peuplement; Voies; Sel. 




“[…] Vita humanior sine sale non quit degere:
adeoque necessarium elementum est,
ut transierit intellectus ad voluptates animi quoque.
Nam ista sales appelantur […]” 1
Plínio “o Velho”, Naturalis Historia, Liv. XXXI

1 “[…] Uma vida mais civilizada, não é possível
levá-la sem o sal; é um produto de tal modo necessário
que constituiu uma metáfora até para os prazeres
do espírito. A isso se chama de facto sal […]”.
O texto de Plínio continua da seguinte forma:
“mas também todo o encanto da vida, a alegria plena
e o repouso das canseiras não encontram uma palavra
que os exprima melhor” – amável tradução do
Professor Doutor Amílcar Guerra, enriquecendo-a
com o seguinte comentário: “Enfim, Plínio fala do
valor metafórico da palavra, do «sal da vida»”.

A Arrábida no Bronze Final - a Paisagem e o Homem

Depois de 5 anos a "trabalhar para o Bronze"...


Resumo
Muito genericamente, o presente trabalho pretende produzir uma análise de questões relacionadas com as estratégias de povoamento das comunidades que habitaram o(s) território(s) da Serra da Arrábida no decorrer do período histórico convencionalmente denominado de “Bronze Final”. A investigação focou-se nas áreas da Serra da Arrábida e da Serra do Risco, estendendo-se, para poente, até às serras dos Pinheirinhos e da Azóia, na plataforma do Cabo Espichel, e, para nascente, até à “Pré-Arrábida”, dominante sobre a foz do Sado. Para o efeito, a Arrábida (Península de Setúbal) foi entendida como um território definido e circunscrito, a norte, pelo Tejo, a sul, pelo Sado, e, a oeste, pelo Oceano; um território de charneira entre o Atlântico e o Mediterrâneo, entre o Norte e o Sul, entre o litoral e o interior; um excepcional ponto de convergência de linhas naturais de transitabilidade (terrestres, fluviais e marítimas), reunindo um conjunto de particularidades geográficas que, associadas às suas excelentes condições naturais de defesa, acessibilidade e abrigo de costa, à disponibilidade dos seus recursos hídricos, marinhos e cinegéticos, e fertilidade dos seus vales, proporcionaram um edénico quadro, em termos de fixação humana, e ao longo da história, particularmente no decurso do Bronze Final. Isto, sem contar com a dimensão estética das paisagens da Arrábida, aspecto que talvez não tenha sido indiferente às comunidades que, em épocas antigas por aqui se instalaram. Posto isto, impôs-se estabelecer um “ponto da situação”, a partir da bibliografia produzida até à data, reconhecendo e coligindo os parcos dados disponíveis e apresentando uma resenha histórica da investigação que lhes subjaz. Para um melhor entendimento do período em causa, e complementarmente, procedeu-se, de forma genérica, a um esboço da sua génese e evolução no âmbito da bibliografia arqueológica europeia, destacando-se as principais questões de ordem teórica e metodológica. Neste seguimento, face à escassez de dados regionais, foi inevitável procurar eventuais paralelos e/ou avaliar as diferenças relativamente a modelos de ocupação traçados para outras áreas, com particular atenção para o Sudoeste Peninsular. Tratando-se de um tema muito pouco estudado, mas onde já afloravam contextos arqueológicos particularmente sugestivos (o monumento funerário da Roça do Casal do Meio, o povoado do Castelo dos Mouros e algumas grutas), entendeu-se pois oportuno avançar com um trabalho de síntese, complementado pelas novidades emergentes das cartas arqueológicas de Sesimbra (2007-2009) e de Setúbal (2010-2013), projectos integrados pelo signatário na qualidade de arqueólogo, espeleólogo e fotógrafo, e que têm permitido ampliar significativamente a base de dados relativa a algumas facetas da questão. A hora ainda não nos permite obter uma perspectiva, sincrónica e de “curta duração”, do povoamento na Arrábida ao longo do 2.º e 1.º milénios a.C. Ainda assim, facto é que a Arrábida afigura-se hoje como um interessante “iceberg de Bronze”, no qual se pode descortinar uma florescente e vigorosa cota emersa no horizonte cultural da última fase da Idade do Bronze do Sul da Estremadura. A avaliação global dos dados disponíveis, acerca do povoamento e sobre o território, sugere, por um lado, uma forte articulação com as vias de comunicação marítimas e fluviais e, por outro, a possibilidade de estarmos perante uma unidade política coerente num território específico e individualizado.
Palavras-chave: Arrábida, Sado, Paisagens, Presença Humana, Bronze Final, a Vida e o Sagrado, Santuários Naturais, Navegações, Sal.

Abstract
The object of this work is to analyse some issues regarding the settlement strategies of the communities that once inhabited the territory(-ies) of Serra da Arrábida (Setúbal/Sesimbra, Portugal) during the period in History conventionally called the “Late Bronze Age”. The research work focused on two main areas – Serra da Arrábida and Serra do Risco – but it also extended to the west, covering the areas of Pinheirinhos and Azóia (both elevations located on the plateau of Cabo Espichel), and to the east, covering what is called the “Pre-Arrábida”, overhanging the mouth of river Sado. For the purpose of this work, Arrábida (on the Portuguese peninsula of Setúbal) comprises a well-defined territory, limited to the north by the river Tagus, to the south by the river Sado and to the west by the Atlantic ocean; a strategically placed territory, a frontier between the Atlantic and the Mediterranean, North and South, coastline and inland; an exceptional location where all natural routes converge (land, river and sea). This incredible set of geographical peculiarities, in association with excellent natural means of defence, accessibility and shelter, the abundance of water, fishing and game resources, as well as the fertility of the valleys, constituted a perfect setting for human settlement throughout history, and must have been particularly appealing during the Late Bronze Age. An additional aspect that perhaps did not escape the attention of the communities that chose to settle down in Arrábida in ancient times is the great beauty of this magnificent landscape. In light of all this, it was imperative to establish a “state of the art”, based on the bibliography and data available, in order to collect and acknowledge the scarce information, as well as to make an historical summary of the research work involved. To give a better understanding of that period, this work includes a generic and complementary summary of its genesis and evolution in the scope of European archaeological bibliography, highlighting the main theoretical and methodological issues. Next, and given the scarcity of regional data, it was inevitable to look for possible parallels and/or to evaluate the differences regarding settlement models already established for other areas, particularly for the Southwest of the Iberian Peninsula. Although this subject has not been the object of many studies, several very suggestive archaeological sites have come up, namely, the funerary monument of Roça do Casal do Meio, the settlement at Castelo dos Mouros, and some caves). Therefore, it seemed appropriate to present a summary of these sites, while at the same time complementing it with new data uncovered during the field work done for the archaeological surveys of Sesimbra (2007-2009) and Setúbal (2010-2013), two projects that contributed to increase quite significantly the existing database regarding some of the issues in discussion and in which the author participated as archaeologist, speleologist and photographer. For the time being, it is still not possible to have a synchronic short-term perspective of the settlement in Arrábida throughout the 2nd and 1st millenniums BC. Nevertheless, Arrábida is seen today as an interesting “Bronze iceberg”, a place that holds tremendous promise, because beneath its waterline there seems to be a strong and flourishing source of material which will enrich the cultural horizon of the final period of the Bronze Age. The overall data assessment regarding settlement and territory suggests a strong articulation with communication routes along watercourses or sea, as well as the possible existence of a coherent political unit within a specified and contained territory.
Key words: Arrábida, Sado, Landscapes, Human presence, Late Bronze Age, Life and Sacred, Natural Sanctuaries, Navigation, Salt.

Presentation




Pré-história das zonas húmidas 2011




Conferência Internacional
 - Pré-história das Zonas Húmidas - Paisagens de Sal
A conferência internacional sobre a Pré-história das zonas húmidas, com particular enfoque na exploração de sal, decorrerá em Setúbal, de 19 a 21 de Maio de 2011 e será organizada pelo Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal (MAEDS), em parceria com SIMARSUL.
A decisão de organizar esta conferência resultou do desenvolvimento de um projecto de investigação sobre o Neolítico final/Calcolítico da Ponta da Passadeira, arqueossítio localizado no estuário do Tejo (concelho do Barreiro), dedicado à exploração de sal. Este estabelecimento, semelhante ao de Marismilla, no Guadalquivir, ou ao Possanco, no Sado, permite defender uma divisão socioterritorial do trabalho entre o interior e o litoral da Península Ibérica no final do IV e III milénios BC. 
O estudo da ocupação humana nas margens das zonas húmidas ou simplesmente da sua exploração no quadro dos respectivos territórios de captação de recursos, tem, em Portugal, uma longa tradição nos estuários do Tejo e Sado, onde se focalizou nos concheiros mesolíticos de Muge e Sado, prosseguindo hoje com renovadas equipas das universidades de Lisboa e Algarve e rejuvenescidas problemáticas. 

O MAEDS tem desenvolvido também projectos de investigação no litoral ocidental em áreas que abrangem os paleo-estuários de pequenos cursos de água, pondo em relevo a atractividade desses meios aquáticos, para os humanos, especialmente no Mesolítico e Neolítico. 
Sítios do Neolítico antigo, como Vale Pincel I e Castelo Belinho, situados na Costa Sudoeste portuguesa, têm desencadeado projectos de investigação que incidem sobre áreas de ecótono da orla litoral em que a exploração dos recursos marítimos faz parte da economia e condiciona as próprias estruturas ideológicas e culturais dessas populações. 

Discutir e reflectir sobre as problemáticas da ocupação e da exploração económica dos ecossistemas mais produtivos da biosfera para as nossas latitudes é também projectar no futuro essas potencialidades, recuperando o saber de uma aprendizagem milenar. 

Pretende-se que a Conferência seja um forum onde investigadores que desenvolvem projectos que de alguma forma se relacionam como meios aquáticos se possam encontrar, havendo obviamente lugar para todos os interessados nestas matérias, mesmo que vinculados a outros domínios científicos, e para estudantes. 
A conferência incluirá uma visita à região, que decorrerá no Sábado dia 21 de Maio. 

A comissão organizadora e as instituições apoiantes têm, pois, a honra de o convidar a participar na Conferência Internacional sobre Pré-história das Zonas Húmidas. Paisagens de Sal.

"Kochab" a estrela fenícia



Os fenícios, tendo triunfado nos seus negócios, acumularam grandes riquezas e resolveram navegar para o mar que se estende fora das Colunas de Hércules e que é chamado Oceano
Diodoro de Sicilia
(Século I a.C.)

Os registos radiométricos mais remotos que documentam a actividade antrópica fenícia na Península Ibérica reportam-se aos finais do séc. IX/inícios do séc. VIII a.C. e provêem de Huelva (1998). Estes novos dados vieram revogar os dados do Morro de Mezquitilla, até há pouco tempo considerados o paradigma peninsular da antiguidade fenícia e que apontavam para finais do séc. X/inícios do séc. IX a.C. Esta importante aferição cronométrica, quando comparada com os dados mais remotos do território português (Alcáçova de Santarém e Almaraz), sugere que o início da ocupação fenícia do nosso território não corresponde a um segundo momento da colonização. As datações apontam para um hiato de apenas 25 anos entre a fixação de povoações mediterrâneas na região de Gibraltar e os primeiros contactos com o litoral Português. A penetração para o interior verificou-se numa segunda fase, talvez apenas na segunda metade do séc. VII a.C. Também os registos polínicos e faunísticos confirmam estes contactos precoces: os dados revelam uma desflorestação intensiva, além do cultivo extensivo de vinha não selvagem; referindo-se, ainda, a introdução dos galináceos.


A origem física destas gentes tem raízes na costa oriental do Mediterrâneo, entre a Palestina e a Síria, numa pequena faixa de terreno com cerca de 25 km de largura por 320 km de comprimento, correspondente à actual costa do Líbano, incluindo regiões da Turquia e de Israel. Parece terem chegado à região por volta de 3000 a.C., sendo que, em 2600 a.C. tinham já relações comerciais e religiosas com o Egipto, as quais tiveram continuidade, pelo menos, até 2200 a.C., altura em que a Fenícia foi invadida pelos Amonitas (uma das possíveis hordas de Povos do Mar?). A região foi periodicamente invadida e controlada por outros povos, designadamente os Hicsos, os Egípcios e os Hititas. É possível que estas diversificadas influências tivessem estado na origem do desenvolvimento da forte vocação comercial e naval dos fenícios e da facilidade com que estabeleceram relações com outros povos. Aliás, estas diversificadas influências estão bem documentadas nas próprias embarcações fenícias, que incorporaram características de diferentes origens, designadamente do Egeu, da Mesopotâmia e do Nilo. Na verdade, foram os fenícios o primeiro povo que efectivamente desenvolveu e expandiu a arte da navegação e as técnicas de construção naval.
Provavelmente forçados pela exiguidade das suas terras cultiváveis, desde cedo se dedicaram ao comércio marítimo, inicialmente com as civilizações mesopotâmicas, egípcia e grega, expandindo progressivamente a sua influência até regiões mais longínquas. O comércio era assumido como a vocação essencial do “Estado” fenício, de tal modo que se auto-apelidavam de “Kena'ani” (Cananitas), o que em hebraico significa comerciante.

A partir de 1200 a.C., com o declínio do poder dos faraós e com a perda de influência do comércio marítimo desenvolvido pelos Micénicos, reuniram-se condições para uma maior afirmação fenícia, passando a cidade de Sídon a deter a supremacia mediterrânea. Os fenícios não ficaram para a história por um expansionismo bélico, no sentido em que não tentaram ampliar o seu território, optando por uma expansão comercial polarizada no estabelecendo de colónias e entrepostos comerciais. Efectivamente, não tinham população suficiente para fundar e alimentar grandes colónias. Regra geral, escolhiam locais estratégicos, bem destacados na paisagem, como ilhas, meandros ou promontórios, com natural potencial de defensibilidade, com praias abrigadas e seguros ancoradouros para os navios, com fácil acesso a zonas de confluência de vias terrestres e fluviais, ligadas a centros de interesse comercial.


Cabo Espichel

O comércio fenício baseava-se na introdução de uma diversidade de exóticos produtos orientais, documentados pelas fontes históricas e residualmente recuperados no registo arqueológico, alguns dos quais ao longo das costas Sul e Ocidental de Portugal (até ao Mondego). De destacar: pastas vítreas, papiros, incensos, especiarias, âmbares, ébano, marfins, ovos de avestruz, seda, linho, tecidos tingidos com púrpura de Tiro (processada a partir do gastrópode marinho Murex), brocados de Sídon, peças trabalhadas em metal, nomeadamente fíbulas e intrincadas filigranas em delicados adornos de ouro (um legado ainda hoje sobrevivente na nossa ourivesaria), além de abundante cerâmica, nomeadamente de engobe vermelho e ânforas R-1. Em troca, para o Oriente, transportavam materiais em bruto, como madeira de cedro e de pinho; metais como ouro, prata, cobre, ferro e estanho; vinhos, azeites, sal e derivados de peixe, entre outros. Com o desenvolvimento do seu comércio, os fenícios tornaram-se, sobretudo, verdadeiros intermediários.

Setúbal e estuário do Sado (vista da Serra de São Luís)

Neste contexto, vão disseminar-se estabelecimentos fenícios (feitorias, colónias e santuários!) ao longo da costa turdetana, nomeadamente ao longo do litoral ocidental e Algarve, preferencialmente nas margens e estuários dos grandes rios: Guadiana (Castro Marim); foz do Gilão (colina de Santa Maria em Tavira); Sado (Setúbal, Abul e Alcácer do Sal) e Arrábida (!); Tejo (Santarém, Lisboa e Almaraz); e Mondego (Santa Olaia e Conímbriga). Também o Alentejo interior (Redondo) e litoral, Baixo e Médio, sentiu as influências orientalizantes. Todos estes espaços denotam características mediterrâneas típicas que se manifestam a nível climático e paisagístico, em particular no que diz respeito ao coberto vegetal. Regiões assentes na trilogia mediterrânea - pão, vinho e azeite - devendo ainda acrescentar-se, no caso português, o sal, o peixe e os seus derivados.

Os contactos comerciais, com diversificadas civilizações, próximas e longínquas, bem como as navegações que para isso intensivamente praticaram e desenvolveram, por certo propiciaram aos fenícios um considerável acervo de conhecimentos geográficos. No entanto, esta informação não se sintetizou nem a influência deste povo se centralizou num Estado uno de concertada estratégia. A Fenícia encontrava-se dividida em pequenas cidades-estado como Biblos, Sídon, Ugarit, Acre, Beirute, Tiro, Baalbek, entre outras, com elevado grau de autonomia e autodeterminação, entre as quais, com frequência, havia rivalidades acentuadas e persistentes, propiciando um "insalubre" clima de instabilidade.
A localização geoestratégica da Fenícia cedo a transformou em entreposto comercial privilegiado. Efectivamente, encontrava-se no cruzamento das zonas de influência e das rotas comerciais das principais civilizações da época. O comércio marítimo, assente na navegação de cabotagem, transformou as cidades fenícias em portos obrigatórios de acostagem dos navios, quer provenientes do Egipto, quer originários do Mar Egeu. Estas influências múltiplas foram, a pouco e pouco, modelando por certo o espírito deste povo, enriquecendo os seus traços culturais, e desenvolvendo a sua tecnologia. Não é surpreendente, portanto, que rapidamente tenham assimilado os modelos de embarcações que maior eficácia revelaram na navegação e no transporte mediterrâneo, aperfeiçoando-os. Os navios cretenses constituem um bom exemplo dessa assimilação e melhoria tecnológica, as embarcações mais desenvolvidas tecnologicamente em meados do 2.º milénio.

Pesca ao largo de Sesimbra
Os vestígios mais antigos de embarcações fenícias datam de cerca de 1400 a.C., plasmados nos relevos da tumba de Kenamon, em Tebas, representando barcos sírios a descarregar num porto egípcio, denotando características atribuíveis às embarcações sírias dessa época, mas apresentando já algumas evoluções dos navios cretenses. Naturalmente, eram utilizados diferentes tipos de embarcações e diferentes formas de transporte, conforme as mercadorias e os mares. Por exemplo, numa representação de um navio a transportar madeira (provavelmente de cedro), existente no palácio de Sargon, em Ninive, datada de cerca de 700 a.C., é possível observar que parte da carga encontrava-se acomodada no convés, enquanto a restante era atada e rebocada como uma jangada. As galeras fenícias, desta época, podiam transportar cargas relativamente grandes, sendo dotadas de uma proa particularmente forte, com vigas elevadas em ambas as extremidades. Eram propulsionadas a remos mas também armavam um mastro onde era aparelhada, com ventos favoráveis, uma vela quadrangular, sustentada por duas vigas encurvadas. A popa apresentava um grande remo direccional, que servia de leme. Nas representações da época também é possível distinguir, na viga da proa, uma grande ânfora destinada certamente a conter água potável.
Tróia de Setúbal
Nesta altura, os navios de guerra, certamente manifestando algumas influências cretenses, eram estreitos e dotados de um convés sobrelevado, utilizado como plataforma de combate. Tinham entre 25 m a 35 m de comprimento e 4 a 5 m de largura. Tal como as galeras de carga, também recorriam a uma dupla propulsão, movidos a remos e à vela, sendo o mastro amovível. Segundo alguns autores, apresentavam já dois níveis de remos, o que permite classificar estes navios como birremes. A direcção também era controlada por um ou dois remos de popa, além de remos suplementares, curtos e maciços, à proa, permitindo uma grande capacidade de manobra, permitindo-lhes dar meia volta rapidamente, acção determinante em combate. No calor da batalha, estes fortes remos podiam ser presos firmemente ao casco, na horizontal, o que viabilizava a sua utilização como aríete ou esporão multidireccional. Esta era uma das características que os distinguia de outros navios de guerra da época, apesar dos navios cretenses já apresentarem um esporão que, no entanto, era fixo.
Hippoi

Por volta de 850 a.C., como parecem indiciar algumas decorações em vasos do século VIII a.C., os navios mercantes fenícios já denotam características bastante evoluídas, encontrando-se também preparados para os confrontos bélicos, versatilidade reveladora de uma forte competição pelos mares mediterrâneos. Os planos de risco da construção naval da época vão apresentando algumas transformações, perdendo-se a tendência para a simetria longitudinal, numa clara adopção do desenho dos navios de guerra cretenses. A proa vai ser elevada, encurvada e revestida a ferro, permitindo uma maior protecção do casco em caso de abalroamento. O mastro apresenta-se relativamente baixo e compacto, enquanto a vela é reforçada com correias de couro.
A atribuição da invenção da birreme e o momento do seu advento constitui assunto de acesa discórdia. Muitos investigadores defendem que este tipo de embarcação foi introduzido pelos gregos, apenas durante a primeira metade do 1.º milénio. Outros, porém, atribuem este importante avanço aos fenícios, defendendo que este povo já as utilizaria no final do 2.º milénio. Seja como for, o certo é que, num relevo esculpido nos muros do palácio de Ninive, representando a frota fenícia de Luli, rei de Tiro e de Sídon, em fuga do porto de Tiro antes do ataque à cidade empreendida pelo rei assírio Senaquerib (séc. VIII a.C.), já são visíveis, navegando conjuntamente, navios redondos, com extremidades simetricamente levantadas, a par de outros compridos, com esporões pontiagudos, todos eles revelando duas ordens de remos sobrepostos, ou seja, era uma frota constituída por birremes.
Quanto às técnicas de navegação do povo fenício, e como já foi dito, eram essencialmente de cabotagem, orientadas por referências visuais existentes na costa. Estas referências paisagísticas (promontórios, elevações, ilhas, estuários, praias e outros recortes costeiros) revestiam-se, certamente, de um acrescido valor simbólico para estes aventureiros navegadores/exploradores. Poucas eram as etapas que dependiam do recurso à navegação celeste, pela ausência de referências existentes na costa, destacando-se os trajectos entre o Norte de África e as Ilhas Baleares, e entre estas e a costa ocidental da Sardenha. Os fenícios podem mesmo ter sido os primeiros a efectuar travessias do Mediterrâneo – Políbio conta como Haníbal, comandante de um navio de guerra cartaginês, conhecido pelo epíteto de o “Rodiano”, efectuou a travessia entre Cartago e Lylibaeum (actual Marselha) em 24 horas. Tal revela, não só, que as navegações em alto mar eram já uma realidade, mas também que os navios utilizados podiam atingir velocidades consideráveis para a época, pois na travessia aludida a velocidade média teria de ser superior a 5 nós.
Gauloi

A navegação comercial era efectuada, quase exclusivamente, nos meses em que se reuniam favoráveis condições meteorológicas e de agitação marítima, isto é, entre Março e Outubro. Já os navios de guerra, utilizados em missões de patrulha costeira e em acções contra a pirataria, bem como em batalhas, navegavam, provavelmente, durante todo o ano. No decurso da Primeira Guerra Púnica (entre Cartago e Roma), os naufrágios causados por temporais ascenderam, no que se refere aos cartagineses, a cerca de 700 navios (de guerra e comerciais, utilizados para o transporte de tropas e abastecimento), tendo os romanos perdido perto de um milhar.

Em suma, as viagens que os fenícios efectuaram e as feitorias, colónias e santuários (!) que estabeleceram em regiões longínquas, permitem deduzir que o seu conhecimento do meio marinho e configuração terrestre era já bastante avançado. Efectivamente, a rede comercial marítima que desenvolveram não seria possível sem uma tecnologia náutica bem desenvolvida (construção, navegação e orientação). A sua construção naval era bem apurada, produzindo navios comerciais e de guerra, que se moviam com o recurso a remos e a grandes velas quadrangulares. Este povo terá sido um dos primeiros a recorrer à estrela polar na navegação, pois os gregos conheciam esta estrela pela designação de “Kochab” ou estrela fenícia. Por fim, importa acrescentar que as direcções Nascente e Poente eram designadas, respectivamente, por “Asu” e “Ereb”, nomes estes que, embora adulterados, sobreviveram até aos nossos dias através das corruptelas “Ásia” e “Europa”.

Cabo de Sagres
Cabo Espichel
Galeão do Sal ao largo da Arrábida



Bibliografia:

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ARRUDA, A. M. (2005) – O 1.º milénio a.n-e. no Centro e no Sul de Portugal: leituras possíveis no início de um novo século. O Arqueólogo Português, série IV, volume 23, p. 9-156.
ARRUDA, A. M. – O Oriente no Ocidente. In MEDINA, J. ed. - História de Portugal. Lisboa: Ediclube. Vol. II, Coordenado por Victor S. Gonçalves. p, 17-44.
ARRUDA, A. M. – A Idade do Ferro no Centro/Sul. In MEDINA, J. ed. - História de Portugal. Lisboa: Ediclube. Vol. II, Coordenado por Victor S. Gonçalves, p. 45-67.
ARRUDA, A. M. – O expansionismo de Cartago e o território actualmente português. In MEDINA, J. ed. - História de Portugal. Lisboa: Ediclube. Vol. II, Coordenado por Victor S. Gonçalves, p. 146-149.
BRAUDEL, F. (1998) – Memórias do Mediterrâneo: Pré- História e Antiguidade. Terramar, ed. 2001, Lisboa.
GUERRA, A. – O mundo da Ora Marítima. In MEDINA, J. ed. - História de Portugal. Lisboa: Ediclube. Vol. II, Coordenado por Victor S. Gonçalves, p. 11-16.
MAYET, F.; SILVA, C. T.(2005) – Fenícios e Romanos no vale do Sado. Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal/Assembleia Distrital de Setúbal.
OLIVEIRA, F.; THIERRY, P.; VILAÇA, R. (Coords.) e ARRUDA, A. M. (colab.) – O mar greco-romano antes de Gregos e Romanos: perspectivas a partir do Ocidente peninsular, Mar Greco-Latino. Actas do Congresso Internacional O Mar Greco-Romano, 2006, p. 31-58.


A Serra da Arrábida no Bronze Final
A Paisagem e o Homem

(no prelo)

Ricardo Soares

(2012)

Dissertação de Mestrado em Arqueologia
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Ruínas Romanas de Tróia


A conserva por salga de peixe e a produção de garum constituíram, certamente, uma das indústrias mais activas do Portugal romano, particularmente nos estuários do Sado e Tejo, Sines e Pessegueiro e na costa algarvia. A larga produção e raio de circulação do garum produzido na Lusitania “portuguesa” foram comprovados por uma ânfora encontrada em Vindolanda, na Muralha de Adriano (Inglaterra), e por alguns exemplares de tipo Dressel 14 verificados nos naufrágios de Cap Bénat e Conillera, em Ibiza (Alarcão, 1988).
Estendendo-se ao longo de quase 2 km de areal, pela margem esquerda do rio Sado, surge a estação de Tróia, um dos mais produtivos e interessantes centros de conserva de peixe do Mediterrâneo Ocidental. É provável que, em época romana, Tróia fosse uma península de área mais reduzida ou mesmo uma ilha do delta estuarino do rio Sado, conforme parece sugerir Avieno – “Ilha de Acála” (ainda não é conhecida a origem toponímica de “Tróia”). A fixação de tão importante complexo industrial na área da foz do Sado prendeu-se, naturalmente, com a abundância, qualidade e diversidade dos recursos marinhos aí disponíveis.
Desde logo, há que ter em conta que o rio Sado constituiu, até ao recente advento do caminho-de-ferro, a principal e mais efectiva via de comunicação entre as duas margens e entre uma série de comunidades e actividades ribeirinhas, unindo a terra e o mar, o interior e o litoral. Também é de sublinhar que actividades como a construção naval, a pesca, a salicultura e a industria conserveira tiveram, até aos nossos dias, uma importância vital no ritmo evolucional e no desenvolvimento da cidade de Setúbal, definindo o "cunho genético", cultural e social das populações que têm partilhado este complexo hidrográfico.
O complexo industrial de Tróia terá começado a laborar já numa fase de estabilidade do processo de ocupação romana, provavelmente durante a dinastia dos Júlios-Cláudios (inícios do séc. I d.C.). O seu abandono verificou-se por volta do século VI d.C., encontrando-se já em irreversível decadência a partir do séc. IV. A desagregação do império levou à progressiva deterioração das rotas comerciais e dos mercados consumidores – o processo de ocupação de Tróia está intimamente associado à própria história política do Império Romano.

Tróia não foi um ponto isolado no Ocidente europeu, na verdade, este centro conserveiro fazia parte de uma complexa cadeia comercial que, centrada no Mar Mediterrâneo (Mare Nostrum), garantiu o fornecimento de produtos e iguarias do mar a todos os grandes núcleos populacionais do Império, incluindo a própria cidade de Roma.

Na margem direita do Sado, a montante e a jusante de Setúbal, entre a Mitrena e o Portinho da Arrábida respectivamente (passando ainda por Sesimbra), são numerosos os vestígios identificados de cetárias . Os tanques de salmora, designados de “cetárias”, são estruturas impermeabilizadas com opus signinum – argamassa de revestimento à base de cal e inertes (areia, cascalho e cerâmica triturada) – o mesmo revestimento utilizado nas piscinas e arquitecturas termais.

Falamos de cubas/tanques de forma rectangular ou quadrangular, de diferentes tamanhos e agrupados contiguamente, mas sem comunicação, em núcleos independentes, separados por muros de alvenaria que possuíam, em alguns casos, pilares de secção transversal quadrangular que suportariam uma cobertura de telha destinada à protecção dos conteúdos em maceração. Destinadas à salga de peixe e de preparados piscícolas (garum), as cetárias do Sado eram construídas em calcários, brecha, grés e conglomerado vermelho do Alto Viso. As arestas eram boleadas para facilitar a limpeza dos tanques.

As cetárias destinavam-se a conter peixes, bivalves e crustáceos, obtidos no rio ou trazidos do alto mar. Eram então lavados e separados segundo as espécies e por fim salgados. As vísceras, devidamente seleccionadas, a que eram adicionadas ervas aromáticas de diferente natureza, sofriam um tratamento de maceração e fermentação, delas se obtendo o garum, espécie de pasta ou molho que servia para condimentar os alimentos. Acondicionado em ânforas ou em vasilhas de menores dimensões, era exportado para os diversos centros de consumo do mundo romano, onde era altamente apreciado, chegando, por vezes, a atingir preços exorbitantes. Para a manutenção e limpeza dos tanques associavam-se poços de água doce de boca circular.

De referir, no registo arqueológico, uma submersão de parte das estruturas de Tróia, aparentemente motivada por um fenómeno de transgressão marinha (fenómeno inicial de afundamento seguido de levantamento já com sedimentos), provavelmente associado a vagas sísmicas e à acção erosiva do próprio Sado.
As ruínas do agregado populacional de Tróia compreendem uma área habitacional com algumas domus, aparentando alguma sumptuosidade bem patente nos mosaicos em opus vermiculatum e estuques com pintura a fresco. A “villa” industrial era servida por um balneário com vestibulum, frigidarium, tepidarium e caldarium sobre hipocaustum, piscinas e sala de ginástica.
Foram identificadas quatro áreas de enterramento: sepulturas sobrepostas numa altura de 7 m na margem da Caldeira (lagoa interior); a sepultura de incineração de Galla; um mausoléu de planta quadrada com nichos abertos nas paredes para guardar urnas cinerárias; sepulturas de superstrutura quadrangular.
O culto tinha lugar num núcleo religioso sedeado na basílica paleo-cristã de quatro naves, com vestígios de 8 bases de colunas e de arranques de arcadas transversais. Paredes estucadas e pintadas com frescos, marmoreados, elementos geométricos e emblemáticos. Do baptistério, documentado por Inácio Marques da Costa, já nada resta nos dias de hoje. De acrescentar, ainda, um columbário.
A história do Sado e de Setúbal está desde sempre intimamente associada à produção de sal. Um estuário que reúne um conjunto de características de excepcional qualidade para a produção deste bem essencial. Uma baia atlântica que associa a qualidade e pureza das suas águas a um óptimo clima mediterrâneo, condições essenciais para uma correcta cristalização desta iguaria.

Além da vital função, o sal é essencial para actividades como a conservação de bens alimentares, produção de queijo e tratamento de peles. A abordagem arqueológica desta actividade esporádica é muito difícil, falamos de estruturas construídas em materiais perecíveis que ocupam zonas estuarinas de grande dinâmica de correntes e marés e que pouco após a sua exploração desaparecem praticamente sem deixar vestígios para o registo arqueológico.

A riqueza e diversidade dos recursos piscícolas do estuário do Sado e da sua frente atlântica, bem como a sua consequente exploração, encontram-se bem comprovadas no registo arqueológico, nomeadamente pela ocorrência de arpões e anzóis de bronze, utilizados em artes piscatórias. Entre os anzóis predominam os de patilha e farpa de grandes dimensões, naturalmente adequados à captura de espécies de profundidade, tanto numa pesca de linha como de espinel (aparelho). Além destes, de referir a ocorrência de agulhas de coser redes, cepos de âncora, âncoras líticas e pesos de rede em barro.


Mó circular
Bibliografia:
ALARCÃO, Jorge – O Domínio Romano em Portugal – Lisboa, 1988
COSTA, A. Marques da – Estudos sobre algumas estações da época luso-romana nos arredores de Setúbal – in O Arqueólogo Português, vol. 26, Lisboa, 1924; vol. 27, Lisboa, 1929; vol. 29, Lisboa, 1933
MAYET, Françoise; SILVA, Carlos Tavares da – Fenícios e Romanos no vale do Sado – Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal/Assembleia Distrital de Setúbal, 2005
SILVA, Carlos Manuel Lindo Tavares da; CABRITA, Mateus Gonçalves – O problema da destruição da povoação romana de Tróia de Setúbal – in Revista de Guimarães, vol. 76, Guimarães, 1966.
SILVA, Carlos Manuel Lindo Tavares da; SOARES, Joaquina – Arqueologia da Arrábida – Parques Naturais, Lisboa: Serviço Nacional de Parques, Reservas e Conservação da Natureza, 1986.
SOARES, Joaquina – Estação romana de Tróia – Grândola, 1980.