Castelo (hisn) de Coina-a-Velha



Vestígios de uma fortificação medieval designada por castelo de Coina-a-Velha ainda podem ser observados no sítio do Casal do Bispo, perto da Aldeia-de-Irmãos em Azeitão. Trata-se de uma propriedade muito antiga que, segundo Joaquim Rasteiro, fazia parte da “Herdade da Infanta”, em finais do século XV. Pertenceu ao infante D. João, filho de D. João I e seus descendentes, e foi vendida em 1528 a Brás de Albuquerque, juntamente com a Bacalhoa. Em 1545 a propriedade foi adquirida por D. Belchior Beliago, o bispo de Fez que acabou por dar o nome à actual propriedade – Casal do Bispo – edificando uma casa nas proximidades do castelo.

De acordo com o mesmo autor, nos finais do século XIX ainda era possível encontrar os restos das estruturas do recinto amuralhado, com uma cerca circunscrevendo toda a escarpa. O autor descreve duas torres, uma no topo Sul da plataforma que encima o monte escarpado, com 9 x 6 metros de lado, e outra mais pequena a 30 metros para Leste da primeira. Também refere uma cisterna de grandes dimensões, com 8,40 x 6,30 metros de lado, com abóbadas de alvenaria e paredes internas revestidas a estuque vermelho (1). Por fim, aponta a Oeste, no sopé do monte, um conjunto de “matmoras” interpretadas como silos (Rasteiro, 1897). Isabel Cristina Fernandes, por seu turno, descreve os restos estruturais de uma pequena alcáçova em crescente ruína, ainda conservando vestígios do seu revestimento avermelhado.

A autora teve oportunidade de recolher alguns exemplares de cerâmica comum de produções muçulmanas, sobretudo formas fechadas (panelas e jarros) de peças omíadas, algumas das quais apresentando «bandas pintadas a branco sobre pasta grosseira, castanha» (Fernandes, 2004).
in FERNANDES, Isabel Cristina Ferreira (2004) – O Castelo de Palmela do domínio islâmico ao cristão

Com vestígios de ocupação romana, islâmica e cristã, o hisn de Coina implanta-se num monte escarpado, paralelo ao Cabeço dos Caracois, contornado pelas ribeiras do Alambre e de Coina, de difícil acesso a Norte, Leste e Oeste. Reveste-se de uma natural importância estratégica, não só pela facilidade de articulação em acções de defesa entre os Castelos de Palmela e Sesimbra, mas também na defesa contra forças que através do Portinho da Arrábida quisessem penetrar na península da Arrábida. Uma implantação geo-estratégica que pode ter justificado um ribat destruído aquando dos recontros entre muçulmanos e cristãos em 1191, nunca mais reconstruído, embora seja mencionado no testamento de D. Sancho I (Rasteiro, 1897).

in FERNANDES, Isabel Cristina Ferreira (2004) – O Castelo de Palmela do domínio islâmico ao cristão

Importa aqui referir que no decorrer da nossa investigação in loco verificámos, em todas a cintura do cabeço de Coina-a-Velha, uma diversificada e sugestiva concentração de residuais topónimos históricos: o caminho que nos leva até ao arqueossítio do Casal do Bispo tem no seu início uma placa de mármore com a inscrição “Estrada dos Romanos”; no sopé da vertente Nordeste do cabeço encontramos a “Quinta do Lapidário”; na vertente Sul, na Aldeia dos Topos, acrescentam-se as quintas da “Ermida”, “Abades” e “Santa Madalena”.

De referir, ainda, os hidrónimos “Ribeira de Coina”, “Ribeira do Alambre”, “Fonte Santa”, “Porto da Vila” e “Porto de Cambas”, os dois últimos sugerindo portos na base do cabeço de Coina-a-Velha, comprovando a antiga navegabilidade daquelas linhas hidrográficas até aos esteiros do Tejo, na zona da Moita. Uma série de vestígios toponímicos que nos remetem para um intenso passado romano, islâmico e cristão.


Numa visita que intentamos ao local (2) confirmámos as nossas suspeitas aferidas a partir da imagem de Google Earth: actualmente o arqueossítio encontra-se em parte coberto por uma densa vegetação, praticamente destruído sob o edificado habitacional em expansão e remodelação desde o século XVI. Falamos de uma grande casa “acastelada”, com mirantes e alpendres, bem visível da estrada Aldeia-de-Irmãos/Portinho da Arrábida, no alto do cabeço contornado pela Ribeira do Alambre.

Ainda acerca do sítio de Coina-a-Velha, Joaquim Rasteiro relata uma curiosa e reincidente lenda que conta que os mouros deixaram três casas subterrâneas: uma cheia de armas, já aberta (a cisterna), outra cheia de ouro e outra com peste, pelo que ninguém se atreveu a procurar o ouro com receio de encontrar a peste (Rasteiro, 1897).

Segundo Jorge Alarcão, a via romana que ligava Olisipo a Emerita Augusta passava primeiro por Equabona e Caetobriga«a via partia provavelmente do Seixal»; «Equabona, distante 12 milhas de Olisipo, corresponde possivelmente a Coina-a-Velha», uma das aldeias da freguesia de S. Lourenço. Joaquim Rasteiro, por seu turno, transcreve uma nota de José Leite de Vasconcellos onde se lê: «A palavra Coina representa ainda, quanto a mim, a antiga Equabona, designação de uma conhecida cidade da Lusitânia. A série das formas por que a palavra primitiva passou até hoje poderá ter sido a seguinte: Equábona>(E)quab(o)na>Cauna>Couna>Colna. A pronúncia popular actual supponho que é Côina, e não Cóina, que é litteraria».


(1) «A cor vermelha resulta da aplicação de um tratamento contra a eutropização das águas, à base de óxido de ferro, resina e argilas vermelhas.» (Fernandes, 2004).
(2) Em meados de Maio de 2009 tentámos visitar o Castelo de Coina-a-Velha, visto o arqueossítio se encontrar no interior de uma propriedade privada procuramos o proprietário que rudemente nos expulsou sem qualquer abertura ao diálogo. Ainda assim conseguimos identificar os restos de uma estrutura murada associada a cerâmicas de construção de aspecto grosseiro e antigo.

Outros arqueossítios islâmicos da Arrábida (ou não!)

Cruzando a leitura das paisagens, os indicadores toponímicos, a informação histórica e os dados da Arqueologia, é possível confirmar uma intensa ocupação rural islâmica predominante a Sul da península da Arrábida, “intramuros” da cintura defensiva delineada pelos husūn (circunscrições defensivas, administrativas e fiscais) de Palmela, Coina, Sesimbra e Almada. Além destes castelos, o sistema defensivo era reforçado pelo entrecruzamento de ângulos territoriais de defesa e comunicação estabelecidos com a guarnição de ribats e atalaias.

Importa referir que no elenco dos sítios que sugerimos ressaltam alguns que não constituem verdadeiros arqueossítios, mas que pela sua implantação e indicadores toponímicos reúnem fortes probabilidades de ocupação islâmica, damos como exemplo o Convento da Arrábida; e outros, que não tendo seguros vestígios de ocupação islâmica entendemos merecerem a sua inclusão e desmistificação (exemplo do “Castelo dos Mouros”).

Legenda:
  1. Castelo (hisn) de Palmela
  2. Palmela – centro histórico
  3. Alcaria do Alto da Queimada – Serra do Louro
  4. Cumeada da Serra de São Luís
  5. Setúbal – área urbana
  6. Mouguelas
  7. Outão
  8. Praia dos Coelhos/Galapos
  9. Creiro
  10. Convento da Arrábida
  11. “Castelo dos Mouros”
  12. Castelo (hisn) de Coina-a-Velha
  13. Castelo (hisn) de Sesimbra
  14. Vale da Vitória – Terras do Risco
  15. Lapa do Fumo – Serra dos Pinheirinhos
  16. Azóia
  17. Ermida da Memória – Cabo Espichel

Por Miguel Amigo & Ricardo Soares

Referências bibliográficas:

  • ALARCÃO, Jorge de (1988) – O Domínio Romano em Portugal – Pub. Europa-América, Mem Martins.
  • ALVES, Adalberto (2007) – Portugal e o Islão Iniciático – Ésquilo, Lisboa.
  • CATARINO, Helena Maria Gomes (2000) – Topónimos Arrábida e a Serra da Arrábida – Sesimbra Cultural, Ano 1, nº 1, Câmara Municipal de Sesimbra.
  • COELHO, António Borges (1972) – Portugal na Espanha Árabe – vol. I, ed. Seara Nova, Lisboa.
  • FERNANDES, Isabel Cristina Ferreira (2004) – O Castelo de Palmela do domínio islâmico ao cristão – Ed. Colibri, Câmara Municipal de Palmela.
  • RASTEIRO, Joaquim (1897) – Notícias archeologicas da Peninsula da Arrábida – O Arqueólogo Português, vol. III, Lisboa.
  • RIBEIRO, Orlando (2004) – A Arrábida. Esboço Geográfico – Fundação Oriente, Câmara Municipal de Sesimbra.
  • SILVA, Carlos Manuel Lindo Tavares da; SOARES, Joaquina (1986) – Arqueologia da Arrábida – Parques Naturais. Lisboa: Serviço Nacional de Parques, Reservas e Conservação da Natureza.

Esquemas de Google Earth de Coina-a-Velha criados por António Carvalho (obrigado!)


- Cabeço dos Caracóis -

Extracto da Folha 454 da CMP esc. 1:25000

Topografia do Cabeço dos Caracóis (Google Earth).

A estrada Aldeia de Irmãos-Portinho da Arrábida separa o cabeço de Coina-a-Velha (Casal do Bispo) do Cabeço dos Caracóis (São Lourenço/Setúbal) , um pronunciado esporão rochoso, com excelentes condições de defesa e domínio da paisagem, que serviu de base de implantação para um “clássico” povoado calcolítico.
A ocupação pré-histórica concentra-se na rechã aplanada, subjacente ao ponto mais elevado do cabeço, numa área de cota média rondando os 150 metros. A sua implantação não foge à “regra” de uma preferência calcolítica pelas meias encostas, situação também verificada, por exemplo, nos povoados de Chibanes (Palmela), Rotura (Setúbal), Moinho da Fonte do Sol (Palmela) e Outeiro Redondo (Sesimbra).
O cabeço é contornado a Norte-Noroeste por uma linha de água que nasce no rasgado vale adjacente, e a Oeste-Sul pela Ribeira do Alambre (?). A Sul estende-se uma planície aluvial senil, que ainda oferece excelentes condições agrícolas. De sublinhar o topónimo local “Porto de Cambas”, sugerindo uma antiga navegabilidade das ribeiras de Coina e do Alambre.

O povoado do Cabeço dos Caracóis é contemporâneo da primeira fase de ocupação do povoado do Pedrão (Serra de São Luís/Setúbal), encontrando-se também representada no Outeiro Redondo/Castro de Sesimbra, no Moinho do Cuco e no Zambujal (Sesimbra) (Silva e Soares, 1986).
As recolhas de superfície documentadas proporcionaram «materiais arqueológicos à superfície: utensilagem de pedra polida; cerâmica, designadamente copo canelado» (Ferreira et al., 1993, p. 269; base de dados "Endovélico").
Na visita que realizei ao sítio, em Junho de 2009, tive oportunidade de observar uma significativa quantidade de cerâmica dispersa por toda a área do povoado destacando-se: alguns bordos simples; bordos espessados de lábio plano; um bordo extrovertido (!), ocorrência também por mim registada no povoado do Moinho do Cuco; algumas carenas; e um pequeno mamilo. No que respeita aos artefactos líticos, não parecem abundar, no entanto identifiquei um pequeno fragmento distal com gume de machado de pedra bem polida, de secção poligonal, em anfibolito; quartzos leitosos com aspectos de talhe; alguns fragmentos de sílex e lascas de cherte.


Materiais do Cabeço dos Caracóis (seg. Silva e Soares, 1986, p. 83).

De sublinhar o facto de, ao contrário do observado na maioria dos povoados descritos no presente trabalho, não serem aparentes significativos vestígios malacológicos de superfície, apenas registei, na minha breve observação, dois fragmentos de concha de grandes dimensões, um deles de vieira (Pecten maximus), e que pela sua escassez e dimensão podem ter tido um carácter funcional ou votivo.

O sítio ainda não foi alvo de escavações arqueológicas, não se vislumbrando, à superfície, evidências de muralhas ou de outras estruturas defensivas, destacando-se a própria geomorfologia do local que constitui uma fortaleza natural per si. No entanto, é possível observar várias manchas de fracturação calcária sugerindo vestígios de derrubes de antigas estruturas, além de alguns alinhamentos rochosos contrários à natural orientação dos afloramentos locais e que podem indiciar restos estruturais de base.


Bibliografia:

FERREIRA, C. J. A.; LOURENÇO, F. S.; SILVA, C. T.; SOUSA, P. (1993) – Património Arqueológico do Distrito de Setúbal. Subsídios para uma carta arqueológica. Setúbal: Associação de Municípios do Distrito de Setúbal.

SILVA, Carlos Manuel Lindo Tavares da; SOARES, Joaquina (1986) – Arqueologia da Arrábida. Parques Naturais. Lisboa: Serviço Nacional de Parques, Reservas e Conservação da Natureza.

Gruta do Escoural



Gruta do Escoural/Montemor-o-Novo

Santuário de Arte Rupestre Peleolítico e Necrópole Neolítica com utilização religiosa, funerária e habitacional (povoado exterior).

Descrição: A Gruta do Escoural foi descoberta em 1963 permitindo, pela primeira vez em Portugal, a identificação de vestígios de arte rupestre paleolítica. Das galerias mais recônditas dessa cavidade subterrânea ao cimo do outeiro que a envolve floresceram, ao longo dos milénios, várias civilizações pré-históricas, desde o Mustierense até fase adiantada do Calcolítico. A mais antiga ocupação humana no Escoural data de há cerca de 50 000 anos (Paleolítico Médio). Embora se possam identificar diversos temas na arte rupestre do Escoural, as representações zoomórficas, do Paleolítico Superior, especialmente de Equídeos e Bovinos são dominantes.

A Gruta desenvolveu-se pela formação de calcários cristalinos metamorfizados, constituída por uma grande sala e múltiplas galerias. Possui diversos níveis de ocupação humana: a mais antiga data de há cerca de 50.000 anos (Paleolítico Médio), tendo servido de abrigo a comunidades nómadas. No Paleolítico superior é transformada num Santuário como atestam as pinturas e gravuras com representações zoomórficas e geométricas no seu interior. No Neolítico final foi utilizada como necrópole funerária. No exterior conservam-se vestígios de um santuário rupestre neolítico, de um povoado calcolítico, e a cerca de 300 metros um tholos.

O conjunto arqueológico do Escoural, pelo largo âmbito cronológico, pela diversidade e raridade dos seus vestígios, merece ser considerado como um marco importante na paisagem, como um testemunho excepcional da história das comunidades humanas que aqui deixaram fossilizado uma parte importante do seu comportamento.

Classificação: Monumento nacional (decreto n.º 45327 de 1963)

Cronologias: Paleolítico Médio (50.000 b.p.); Paleolítico Superior; Neolítico; Calcolítico

in: http://www.cm-montemornovo.pt/pt/


Não há Fumo sem fogo...

 
Lapa do Fumo:

Gruta natural da Serra dos Pinheirinhos (Arrábida), a cerca de 200 metros de altitude e de eixo S.E.-N.W. O interesse arqueológico foi despertado em 1956 por E. da Cunha Serrão que veio a orientar várias campanhas de escavação no local. Em 1964 as investigações foram partilhadas com o arquitecto Gustavo Marques e José Eduardo Morais Arnaud. Os resultados da investigação revelaram níveis do Neolítico ao período Muçulmano, destacando-se enterramentos do Neolítico Final e uma ocupacão do Bronze Final com cerâmica de ornatos brunidos.

Bibliografia:

SERRÃO, Eduardo da Cunha (1973) – Carta Arqueológica do Concelho de Sesimbra (desde o Paleolítico antigo até 1200 d.C.). Setúbal: Junta Distrital de Setúbal.

Necrópole de cistas das Casas Velhas

Setúbal/Grândola/Melides

É rico o património arqueológico da freguesia de Melides (Grândola), contando com seis estações arqueológicas: o povoado neolítico de Montum de Baixo, a Gruta da Cerca do Zambujal e a Gruta do Lagar, ambas do Neolítico, a anta da Pedra Branca, a Necrópole de Cistas de Casas Velhas da Idade do Bronze e ainda o sítio Neolítico de Santa Marinha.

Descoberta na década 70, do século passado, a necrópole de cistas de Casas Velhas foi intervencionada pelos investigadores Carlos Tavares da Silva e Joaquina Soares, do MAEDS (Museu de Arqueologia e Etnografia do Distrito de Setúbal). Do espólio então exumado destacam-se os vasos carenados e alguns objectos em bronze, nomeadamente machados.

"Necrópole de cistas, assentes em plataforma, em forma de favo, dispostas em recinto tumular sem estrutura circundante. As sepulturas apresentam uma planta rectangular ou trapezóidal formadas por esteios dispostos verticalmente" (in Base de Dados Endovélico).





Bibliografia:


SILVA, C. T.; SOARES, J. (1981) - Pré-História da Área de Sines. Lisboa.
SILVA, A. F. (1984) - A Idade dos Metais em Portugal. História de Portugal, vol. I.