Outeiro Redondo/Castro de Sesimbra


Extracto da Folha 464 da CMP esc. 1:25000

Topografia do Outeiro Redondo (Google Earth)

Povoado fortificado de altura, implantado na mais baixa elevação de uma linha de três cabeços orientados de Nordeste para Sudoeste, coroada pelo castelo de Sesimbra. As óptimas condições naturais de defesa do Outeiro Redondo são bem visíveis quando circulamos na estrada que desce à vila de Sesimbra e que contorna a elevação e as suas imponentes escarpas de calcários jurássicos, brancos e duros (213 metros, no ponto mais alto - CMP).

Domina todo o vale diapírico e baía de Sesimbra, entre a praia da Califórnia e o Forte do Cavalo, contactado visualmente o povoado do Zambujal, seu contemporâneo (a Noroeste). A Norte e Este é praticamente inexpugnável, dispensando estruturas defensivas, sendo o acesso ao sítio apenas possível pelo recorte orográfico entre o cabeço contíguo (o cabeço do Moinho da Forca, a Sudoeste), por seu turno contíguo ao morro do castelo. É neste ponto que se definem os derrubes de muralha e algumas estruturas habitacionais, entretanto alvo de intervenções arqueológicas de escavação sob a direcção de João Luís Cardoso (2005-2008).


Entre 5 de Agosto e 24 de Setembro de 1966, o sítio foi alvo de algumas sondagens, trabalhos dirigidos pelo arquitecto Gustavo Marques e cujos resultados, segundo João Luís Cardoso, nunca terão sido publicados pelo autor (Cardoso, 2009). Contudo, Eduardo da Cunha Serrão descreve-nos, na sua Carta Arqueológica do Concelho de Sesimbra, um elenco de materiais provenientes do Outeiro Redondo (Serrão, 1994). Cunha Serrão remete-nos para um texto de Gustavo Marques (Serrão, 1994, p. 62-63, Apud Marques, 1967), o qual não tive oportunidade de consultar directamente. Do referido elenco de materiais destacam-se: «polidores incompletos e um grande fragmento de mó manuária» de granito; «fragmentos de machados polidos» de diorito; «lascas atípicas» de quartzito; «duas pontas de seta mitriformes e uma tipo Torre Eiffel, bem como fragmentos de outras» de sílex; «fragmentos de lâminas prismáticas; uma lâmina ovóide fragmentada e um raspador buril», também em sílex. Cerâmica «não decorada, alguns fragmentos com perfurações para suspensão» e pratos; copos com decoração tipo “folha de acácia”, canelados, «em xadrez e campaniforme». De acrescentar, ainda, «fragmentos de peso de tear» e «ossos de animais e conchas de moluscos». Segundo Cunha Serrão, Gustavo Marques «propõe três épocas de ocupação: 1.ª – Eneolítica Pré-campaniforme; 2.ª Campaniforme; 3.ª Horizonte “folha de acácia”» (ob. cit., p. 62-63).

Cerâmicas do Outeiro Redondo (seg. Serrão, 1994, p. 63, Apud Marques, 1967)

Segundo Carlos Tavares da Silva, o registo material do Outeiro Redondo sugere um inaugural período de ocupação situado cronologicamente por volta de 2500/2400 a.C. (contemporâneo da 1.ª fase do Pedrão), cronologia fixado pela ocorrência de alguns fragmentos de copos canelados e de uma seta mitriforme (Silva e Soares, 1986).

Nos últimos anos a jazida voltou a ser objecto de investigação arqueológica, desta feita em trabalhos de prospecção e escavação conduzidos por João Luís Cardoso, cujos resultados ainda aguardam publicação, importando referir, contudo, a breve cartela publicada pelo autor na nova Carta Arqueológica de Sesimbra – “Outeiro Redondo” (Cardoso, 2009). O investigador promoveu um estudo de espólio em 2004 e analisou a informação contida num extracto de caderno de campo de O. da Veiga Ferreira, datado de 22 de Dezembro de 1967, onde são descritos «bastiões adossados a muralha curvilínea» (Cardoso, 2000, p. 57). Em 2005 iniciou um «vasto programa anual de escavações» que têm decorrido até à actualidade (Cardoso, 2009, p. 154).

João Luís Cardoso adianta, pela primeira vez, alguns resultados das suas recentes investigações: uma potência estratigráfica máxima de cerca de 1,20 metros, que evidencia uma «permanência de ocupação humana durante quase todo o III milénio a.C.», entre o Calcolítico inicial da Estremadura (primeiros séculos do III milénio a.C.) e o Calcolítico pleno (Campaniforme Internacional) – entre cerca de 2800 e 2200 a.C. (cronologia aferida com base em datações radiocarbónicas). Os níveis inferiores registam «numerosos fragmentos de taças com decoração de finas caneluras paralelas, constituindo bandas simples abaixo do bordo, acompanhadas, entre outros, por recipientes de paredes direitas e fundos planos ou ligeiramente convexos (“copos”, na nomenclatura arqueológica)». Nos níveis superiores estas produções cerâmicas vão ser substituídas por recipientes de paredes direitas e recipientes esféricos (vasos de provisões), decorados com motivos em “folha de acácia” e “crucíferos”. A estratigrafia calcolítica é encerrada por «escassos fragmentos de vasos campaniformes do grupo Internacional» – Calcolítico pleno (ob. cit., p. 154).

No que respeita à metalurgia do Outeiro Redondo, esta encontra-se bem documentada desde o Calcolítico inicial, sendo a produção local aparentemente confirmada pela ocorrência de um pequeno lingote que depois de analisado nos remete para uma provável origem no Alto-Alentejo.

Por seu turno, a cultura lítica é atestada pela presença de machados e enxós de pedra polida em anfibolitos (também originários daquele quadrante alentejano), além de «um belo conjunto de pontas de seta, raspadores, de lâminas e de elementos de talhe bifacial, cujo brilho, conservado ao longo do gume, indica a sua utilização como elementos de foices» (ob. cit., p. 154). Pelo seu aspecto, o sílex aparenta ter origem, na sua maior porção, «nos afloramentos cretácicos situados a norte do Tejo». Além dos referidos elementos de foice, as práticas agrícolas encontram-se bem documentadas pela recolha de diversos elementos de mós manuais (dormentes e moventes) que, segundo o autor, também poderiam ter servido para «farinar bolotas». A tecelagem também surge comprovada pela ocorrência de «numerosas placas de barro perfuradas», interpretadas como pesos de primitivos teares (ob. cit., p. 154-155).

Pontas de seta em sílex
Lapa do Bugio e Outeiro Redondo
em exposição no Museu Municipal de Sesimbra
(foto de R. Soares)

João Luís Cardoso também descreve os vestígios estruturais que identificou, referindo-se a duas ordens de muralhas: a primeira a Sul, contornando o topo da elevação, e um segundo pano de muralha arqueado, a Este, «avançado relativamente à muralha, que lhe passa por detrás, que defenderia uma entrada no recinto, constituindo deste modo uma espécie de barbacã» (ob. cit., p. 155). A muralha que se associa a esta “barbacã” desenvolve-se na direcção Este-Oeste, atingindo, na extremidade Ocidental, a sua máxima expressão. Nesta localização, para fazer face ao acentuado declive, foi edificado, com grandes blocos deslocados do próprio cabeço, «um dispositivo de muros adossados longitudinalmente, que garantiam estabilidade à estrutura» (ob. cit., p. 155). A fase mais antiga do complexo defensivo remonta ao Calcolítico inicial, sendo que a fase construtiva mais recente reporta-se aos finais do Calcolítico pleno.

As estruturas habitacionais são mais discretas, destacando-se uma estrutura de combustão («lareira estruturada»), utilizada durante o Calcolítico inicial. De referir, ainda, uma série de muros radiais em relação à muralha, perpendiculares ao seu lado interno, que compartimentaram as estruturas domésticas durante o Calcolítico pleno (ob. cit., p. 155). Segundo Manuel Calado, «a área delimitada pelo potente sistema defensivo é muito escassa, pelo que estamos perante aquilo que se poderia designar, com alguma liberdade analógica, como “casal fortificado”» (Calado et. al., 2009, p. 26).

Nas visitas que realizei ao local verifiquei, em toda a área do povoado, sobretudo na área intervencionada, numerosos fragmentos de cerâmica manual, em particular alguns bordos de taça espessados, de lábio plano; fragmentos de cerâmica canelada; um fragmento cerâmico com perfuração de suspensão; artefactos de sílex e chert; e dormentes de mós manuais em arenito, integrando os vestígios estruturais. Por outro lado, actividades como a criação de gado e a recolecção marisqueira são fáceis de constatar na observação de superfície: diversos restos osteológicos (ovi-caprídeos) e abundantes e singularmente diversificados restos malacológicos: lapa (Patella vulgata e Patella aspera?), mexilhão (Mytilus edulis), ostra (Crassostrea angulata), búzio, e outros fragmentos de conchas de bivalves, de grande porte e espessura, que não me arrisco a identificar.


Referências Bibliográficas:

CALADO, M.; GONÇALVES, L.; FRANCISCO, R.; ALVIM, P.; ROCHA, L.; FERNANDES, R. (2009) – O Tempo do Risco. Carta Arqueológica de Sesimbra. Sesimbra: Câmara Municipal.
CARDOSO, J. L. (2009) – Outeiro Redondo. O Tempo do Risco. Carta Arqueológica de Sesimbra. Sesimbra: Câmara Municipal, p. 154-155.
MARQUES, G. (1967) – Castro eneolítico de Sesimbra. Boletim do Centro de Estudos do Museu Arqueológico de Sesimbra. Sesimbra: 1:1 e 2, p. 10-21.

SERRÃO, E. C. (1994) – Carta Arqueológica do Concelho de Sesimbra (desde o Vilafranquiano Mádio até 1200 d.C.). Sesimbra: Câmara Municipal de Sesimbra.
SILVA, C. T.; SOARES, J. (1986) – Arqueologia da Arrábida. Parques Naturais. Lisboa: Serviço Nacional de Parques, Reservas e Conservação da Natureza, 15.


João Luís Cardoso, Joaquina Soares, Manuel Calado e Carlos Tavares da Silva
em visita ao Outeiro Redondo, em 16 de Novembro de 2007, por ocasião do II Encontro de Arqueologia da Arrábida

(foto de R. Soares)

Castelo (hisn) de Coina-a-Velha



Vestígios de uma fortificação medieval designada por castelo de Coina-a-Velha ainda podem ser observados no sítio do Casal do Bispo, perto da Aldeia-de-Irmãos em Azeitão. Trata-se de uma propriedade muito antiga que, segundo Joaquim Rasteiro, fazia parte da “Herdade da Infanta”, em finais do século XV. Pertenceu ao infante D. João, filho de D. João I e seus descendentes, e foi vendida em 1528 a Brás de Albuquerque, juntamente com a Bacalhoa. Em 1545 a propriedade foi adquirida por D. Belchior Beliago, o bispo de Fez que acabou por dar o nome à actual propriedade – Casal do Bispo – edificando uma casa nas proximidades do castelo.

De acordo com o mesmo autor, nos finais do século XIX ainda era possível encontrar os restos das estruturas do recinto amuralhado, com uma cerca circunscrevendo toda a escarpa. O autor descreve duas torres, uma no topo Sul da plataforma que encima o monte escarpado, com 9 x 6 metros de lado, e outra mais pequena a 30 metros para Leste da primeira. Também refere uma cisterna de grandes dimensões, com 8,40 x 6,30 metros de lado, com abóbadas de alvenaria e paredes internas revestidas a estuque vermelho (1). Por fim, aponta a Oeste, no sopé do monte, um conjunto de “matmoras” interpretadas como silos (Rasteiro, 1897). Isabel Cristina Fernandes, por seu turno, descreve os restos estruturais de uma pequena alcáçova em crescente ruína, ainda conservando vestígios do seu revestimento avermelhado.

A autora teve oportunidade de recolher alguns exemplares de cerâmica comum de produções muçulmanas, sobretudo formas fechadas (panelas e jarros) de peças omíadas, algumas das quais apresentando «bandas pintadas a branco sobre pasta grosseira, castanha» (Fernandes, 2004).
in FERNANDES, Isabel Cristina Ferreira (2004) – O Castelo de Palmela do domínio islâmico ao cristão

Com vestígios de ocupação romana, islâmica e cristã, o hisn de Coina implanta-se num monte escarpado, paralelo ao Cabeço dos Caracois, contornado pelas ribeiras do Alambre e de Coina, de difícil acesso a Norte, Leste e Oeste. Reveste-se de uma natural importância estratégica, não só pela facilidade de articulação em acções de defesa entre os Castelos de Palmela e Sesimbra, mas também na defesa contra forças que através do Portinho da Arrábida quisessem penetrar na península da Arrábida. Uma implantação geo-estratégica que pode ter justificado um ribat destruído aquando dos recontros entre muçulmanos e cristãos em 1191, nunca mais reconstruído, embora seja mencionado no testamento de D. Sancho I (Rasteiro, 1897).

in FERNANDES, Isabel Cristina Ferreira (2004) – O Castelo de Palmela do domínio islâmico ao cristão

Importa aqui referir que no decorrer da nossa investigação in loco verificámos, em todas a cintura do cabeço de Coina-a-Velha, uma diversificada e sugestiva concentração de residuais topónimos históricos: o caminho que nos leva até ao arqueossítio do Casal do Bispo tem no seu início uma placa de mármore com a inscrição “Estrada dos Romanos”; no sopé da vertente Nordeste do cabeço encontramos a “Quinta do Lapidário”; na vertente Sul, na Aldeia dos Topos, acrescentam-se as quintas da “Ermida”, “Abades” e “Santa Madalena”.

De referir, ainda, os hidrónimos “Ribeira de Coina”, “Ribeira do Alambre”, “Fonte Santa”, “Porto da Vila” e “Porto de Cambas”, os dois últimos sugerindo portos na base do cabeço de Coina-a-Velha, comprovando a antiga navegabilidade daquelas linhas hidrográficas até aos esteiros do Tejo, na zona da Moita. Uma série de vestígios toponímicos que nos remetem para um intenso passado romano, islâmico e cristão.


Numa visita que intentamos ao local (2) confirmámos as nossas suspeitas aferidas a partir da imagem de Google Earth: actualmente o arqueossítio encontra-se em parte coberto por uma densa vegetação, praticamente destruído sob o edificado habitacional em expansão e remodelação desde o século XVI. Falamos de uma grande casa “acastelada”, com mirantes e alpendres, bem visível da estrada Aldeia-de-Irmãos/Portinho da Arrábida, no alto do cabeço contornado pela Ribeira do Alambre.

Ainda acerca do sítio de Coina-a-Velha, Joaquim Rasteiro relata uma curiosa e reincidente lenda que conta que os mouros deixaram três casas subterrâneas: uma cheia de armas, já aberta (a cisterna), outra cheia de ouro e outra com peste, pelo que ninguém se atreveu a procurar o ouro com receio de encontrar a peste (Rasteiro, 1897).

Segundo Jorge Alarcão, a via romana que ligava Olisipo a Emerita Augusta passava primeiro por Equabona e Caetobriga«a via partia provavelmente do Seixal»; «Equabona, distante 12 milhas de Olisipo, corresponde possivelmente a Coina-a-Velha», uma das aldeias da freguesia de S. Lourenço. Joaquim Rasteiro, por seu turno, transcreve uma nota de José Leite de Vasconcellos onde se lê: «A palavra Coina representa ainda, quanto a mim, a antiga Equabona, designação de uma conhecida cidade da Lusitânia. A série das formas por que a palavra primitiva passou até hoje poderá ter sido a seguinte: Equábona>(E)quab(o)na>Cauna>Couna>Colna. A pronúncia popular actual supponho que é Côina, e não Cóina, que é litteraria».


(1) «A cor vermelha resulta da aplicação de um tratamento contra a eutropização das águas, à base de óxido de ferro, resina e argilas vermelhas.» (Fernandes, 2004).
(2) Em meados de Maio de 2009 tentámos visitar o Castelo de Coina-a-Velha, visto o arqueossítio se encontrar no interior de uma propriedade privada procuramos o proprietário que rudemente nos expulsou sem qualquer abertura ao diálogo. Ainda assim conseguimos identificar os restos de uma estrutura murada associada a cerâmicas de construção de aspecto grosseiro e antigo.

Outros arqueossítios islâmicos da Arrábida (ou não!)

Cruzando a leitura das paisagens, os indicadores toponímicos, a informação histórica e os dados da Arqueologia, é possível confirmar uma intensa ocupação rural islâmica predominante a Sul da península da Arrábida, “intramuros” da cintura defensiva delineada pelos husūn (circunscrições defensivas, administrativas e fiscais) de Palmela, Coina, Sesimbra e Almada. Além destes castelos, o sistema defensivo era reforçado pelo entrecruzamento de ângulos territoriais de defesa e comunicação estabelecidos com a guarnição de ribats e atalaias.

Importa referir que no elenco dos sítios que sugerimos ressaltam alguns que não constituem verdadeiros arqueossítios, mas que pela sua implantação e indicadores toponímicos reúnem fortes probabilidades de ocupação islâmica, damos como exemplo o Convento da Arrábida; e outros, que não tendo seguros vestígios de ocupação islâmica entendemos merecerem a sua inclusão e desmistificação (exemplo do “Castelo dos Mouros”).

Legenda:
  1. Castelo (hisn) de Palmela
  2. Palmela – centro histórico
  3. Alcaria do Alto da Queimada – Serra do Louro
  4. Cumeada da Serra de São Luís
  5. Setúbal – área urbana
  6. Mouguelas
  7. Outão
  8. Praia dos Coelhos/Galapos
  9. Creiro
  10. Convento da Arrábida
  11. “Castelo dos Mouros”
  12. Castelo (hisn) de Coina-a-Velha
  13. Castelo (hisn) de Sesimbra
  14. Vale da Vitória – Terras do Risco
  15. Lapa do Fumo – Serra dos Pinheirinhos
  16. Azóia
  17. Ermida da Memória – Cabo Espichel

Por Miguel Amigo & Ricardo Soares

Referências bibliográficas:

  • ALARCÃO, Jorge de (1988) – O Domínio Romano em Portugal – Pub. Europa-América, Mem Martins.
  • ALVES, Adalberto (2007) – Portugal e o Islão Iniciático – Ésquilo, Lisboa.
  • CATARINO, Helena Maria Gomes (2000) – Topónimos Arrábida e a Serra da Arrábida – Sesimbra Cultural, Ano 1, nº 1, Câmara Municipal de Sesimbra.
  • COELHO, António Borges (1972) – Portugal na Espanha Árabe – vol. I, ed. Seara Nova, Lisboa.
  • FERNANDES, Isabel Cristina Ferreira (2004) – O Castelo de Palmela do domínio islâmico ao cristão – Ed. Colibri, Câmara Municipal de Palmela.
  • RASTEIRO, Joaquim (1897) – Notícias archeologicas da Peninsula da Arrábida – O Arqueólogo Português, vol. III, Lisboa.
  • RIBEIRO, Orlando (2004) – A Arrábida. Esboço Geográfico – Fundação Oriente, Câmara Municipal de Sesimbra.
  • SILVA, Carlos Manuel Lindo Tavares da; SOARES, Joaquina (1986) – Arqueologia da Arrábida – Parques Naturais. Lisboa: Serviço Nacional de Parques, Reservas e Conservação da Natureza.

Esquemas de Google Earth de Coina-a-Velha criados por António Carvalho (obrigado!)


- Cabeço dos Caracóis -

Extracto da Folha 454 da CMP esc. 1:25000

Topografia do Cabeço dos Caracóis (Google Earth).

A estrada Aldeia de Irmãos-Portinho da Arrábida separa o cabeço de Coina-a-Velha (Casal do Bispo) do Cabeço dos Caracóis (São Lourenço/Setúbal) , um pronunciado esporão rochoso, com excelentes condições de defesa e domínio da paisagem, que serviu de base de implantação para um “clássico” povoado calcolítico.
A ocupação pré-histórica concentra-se na rechã aplanada, subjacente ao ponto mais elevado do cabeço, numa área de cota média rondando os 150 metros. A sua implantação não foge à “regra” de uma preferência calcolítica pelas meias encostas, situação também verificada, por exemplo, nos povoados de Chibanes (Palmela), Rotura (Setúbal), Moinho da Fonte do Sol (Palmela) e Outeiro Redondo (Sesimbra).
O cabeço é contornado a Norte-Noroeste por uma linha de água que nasce no rasgado vale adjacente, e a Oeste-Sul pela Ribeira do Alambre (?). A Sul estende-se uma planície aluvial senil, que ainda oferece excelentes condições agrícolas. De sublinhar o topónimo local “Porto de Cambas”, sugerindo uma antiga navegabilidade das ribeiras de Coina e do Alambre.

O povoado do Cabeço dos Caracóis é contemporâneo da primeira fase de ocupação do povoado do Pedrão (Serra de São Luís/Setúbal), encontrando-se também representada no Outeiro Redondo/Castro de Sesimbra, no Moinho do Cuco e no Zambujal (Sesimbra) (Silva e Soares, 1986).
As recolhas de superfície documentadas proporcionaram «materiais arqueológicos à superfície: utensilagem de pedra polida; cerâmica, designadamente copo canelado» (Ferreira et al., 1993, p. 269; base de dados "Endovélico").
Na visita que realizei ao sítio, em Junho de 2009, tive oportunidade de observar uma significativa quantidade de cerâmica dispersa por toda a área do povoado destacando-se: alguns bordos simples; bordos espessados de lábio plano; um bordo extrovertido (!), ocorrência também por mim registada no povoado do Moinho do Cuco; algumas carenas; e um pequeno mamilo. No que respeita aos artefactos líticos, não parecem abundar, no entanto identifiquei um pequeno fragmento distal com gume de machado de pedra bem polida, de secção poligonal, em anfibolito; quartzos leitosos com aspectos de talhe; alguns fragmentos de sílex e lascas de cherte.


Materiais do Cabeço dos Caracóis (seg. Silva e Soares, 1986, p. 83).

De sublinhar o facto de, ao contrário do observado na maioria dos povoados descritos no presente trabalho, não serem aparentes significativos vestígios malacológicos de superfície, apenas registei, na minha breve observação, dois fragmentos de concha de grandes dimensões, um deles de vieira (Pecten maximus), e que pela sua escassez e dimensão podem ter tido um carácter funcional ou votivo.

O sítio ainda não foi alvo de escavações arqueológicas, não se vislumbrando, à superfície, evidências de muralhas ou de outras estruturas defensivas, destacando-se a própria geomorfologia do local que constitui uma fortaleza natural per si. No entanto, é possível observar várias manchas de fracturação calcária sugerindo vestígios de derrubes de antigas estruturas, além de alguns alinhamentos rochosos contrários à natural orientação dos afloramentos locais e que podem indiciar restos estruturais de base.


Bibliografia:

FERREIRA, C. J. A.; LOURENÇO, F. S.; SILVA, C. T.; SOUSA, P. (1993) – Património Arqueológico do Distrito de Setúbal. Subsídios para uma carta arqueológica. Setúbal: Associação de Municípios do Distrito de Setúbal.

SILVA, Carlos Manuel Lindo Tavares da; SOARES, Joaquina (1986) – Arqueologia da Arrábida. Parques Naturais. Lisboa: Serviço Nacional de Parques, Reservas e Conservação da Natureza.

Gruta do Escoural



Gruta do Escoural/Montemor-o-Novo

Santuário de Arte Rupestre Peleolítico e Necrópole Neolítica com utilização religiosa, funerária e habitacional (povoado exterior).

Descrição: A Gruta do Escoural foi descoberta em 1963 permitindo, pela primeira vez em Portugal, a identificação de vestígios de arte rupestre paleolítica. Das galerias mais recônditas dessa cavidade subterrânea ao cimo do outeiro que a envolve floresceram, ao longo dos milénios, várias civilizações pré-históricas, desde o Mustierense até fase adiantada do Calcolítico. A mais antiga ocupação humana no Escoural data de há cerca de 50 000 anos (Paleolítico Médio). Embora se possam identificar diversos temas na arte rupestre do Escoural, as representações zoomórficas, do Paleolítico Superior, especialmente de Equídeos e Bovinos são dominantes.

A Gruta desenvolveu-se pela formação de calcários cristalinos metamorfizados, constituída por uma grande sala e múltiplas galerias. Possui diversos níveis de ocupação humana: a mais antiga data de há cerca de 50.000 anos (Paleolítico Médio), tendo servido de abrigo a comunidades nómadas. No Paleolítico superior é transformada num Santuário como atestam as pinturas e gravuras com representações zoomórficas e geométricas no seu interior. No Neolítico final foi utilizada como necrópole funerária. No exterior conservam-se vestígios de um santuário rupestre neolítico, de um povoado calcolítico, e a cerca de 300 metros um tholos.

O conjunto arqueológico do Escoural, pelo largo âmbito cronológico, pela diversidade e raridade dos seus vestígios, merece ser considerado como um marco importante na paisagem, como um testemunho excepcional da história das comunidades humanas que aqui deixaram fossilizado uma parte importante do seu comportamento.

Classificação: Monumento nacional (decreto n.º 45327 de 1963)

Cronologias: Paleolítico Médio (50.000 b.p.); Paleolítico Superior; Neolítico; Calcolítico

in: http://www.cm-montemornovo.pt/pt/