Pedra Moirinha | Portimão


Penedo rudemente afeiçoado, de sienito nefelínico, originalmente proveniente da Serra de Monchique e actualmente assente em terrenos calcários argilosos (miocénicos), em Portimão. A Pedra Moirinha, além dos recorrentes mitos e lendas populares, envolve-se num controverso mistério científico, relativamente ao fenómeno que a mobilizou desde as cumeadas da Serra de Monchique, até ao seu actual destino, na zona poente da cidade da Portimão, a sul da colina da Boa Vista.

Por um lado, a doutrina geológica não parece admitir a ocorrência de fenómenos glaciáricos ibéricos abaixo dos 1600 metros de altitude, o que neste caso inviabiliza o transporte desta grande rocha por via glaciar. Por outro lado, e admitindo tratar-se de uma acção antrópica, sem aparente atribuição funcional, resta-nos uma motivação ritual, um menir enquadrável na cultura mágico-religiosa megalítica. Nesse caso, ainda podem ser levantas duas questões: a singularidade morfológica de um menir de cerca de 20 toneladas e a dificuldade logística do transporte de um megálito desta envergadura, ao longo de cerca de 20 km de terrenos acidentados por elevações, vales e linhas de água.

Posto isto, seja esta "incrível migração" responsabilidade da Natureza ou de autoria humana, tratou-se, sem dúvida, de uma notável empresa, perpetuada, mais não seja, pela própria rocha, orgulhosamente indissolúvel aos tempos, e por um justo topónimo urbano - "o sítio da Pedra Mourinha".



A Arqueologia como pretexto para a Escultura


Projecto de Investigação | Doutoramento em Belas Artes
Sara Navarro
Faculdade de Belas Artes da Universidade de Lisboa



Potes e Transfigurações: a Arqueologia como pretexto para a Escultura é uma investigaçãoteórico-prática que pretende contribuir para o aprofundamento de questões relacionadas com a produção cerâmica pré-histórica e possíveis aplicações das técnicas, temáticas e simbologias desta produção no desenvolvimento de escultura contemporânea.

Estruturada num modelo bipartido em que a dimensão teórica e a prática têm valor equiparado, procuramos, através de uma ligação entre a investigação arqueológica e a produção artística, a criação de objetos escultóricos que se aproximam das formas de cerâmica pré-histórica, distinguindo-se destas pela alteração da escala, por uma manipulação original dos esquemas decorativos e pela ruptura com a funcionalidade. Objetos de terracota, realizados pela técnica da manufactura cerâmica pré-histórica, em que se explora a relação entre a mão e a matéria, no sentido do “saber fazer” artesanal, como forma geradora da obra.
Com uma componente teórica, relacionada com a investigação arqueológica, complementada por uma parte prática, de domínio da tecnologia cerâmica, a presente investigação tem como objectivo principal a produção artística decorrente de ambas.

A conexão entre a produção artística contemporânea e a arqueologia é uma questão abordada, não só pela teoria da arte como também pela teoria arqueológica.

No âmbito da Arqueologia, salienta-se Colin Renfrew que, em Figuring it Out – The parallel Visions of Artists and Archaeologists (2006), propõe uma convergência entre Arte e Arqueologia. Renfrew explora a possibilidade de uma visão paralela entre artistas e arqueólogos, numa convergência rumo à compreensão do mundo material. O seu objectivo é tentar olhar para a arte como arqueologia e para a arqueologia como arte, numa procura da interação entre as duas, nas quais, de diferentes maneiras, se procura investigar a condição humana, numa criativa analogia.

No que respeita à cerâmica contemporânea, e já mais próximo da linha de trabalho que nos propomos desenvolver, temos como principal referência os trabalhos em terracota de Gabriel Orozco e, no contexto português, a obra de Jorge Vieira.

Os trabalhos de Gabriel Orozco, como por exemplo, My Hands Are My Heart, Palmplate, Marble Pot, Hand-Ball, Hand Pot, anunciam um retorno da escultura à produção artesanal. Invocam as práticas primitivas da produção de objetos utilitários e conotam a prática da escultura com um valor cultural arcaico, quase arquetípico.

No âmbito da arte portuguesa, apontamos como principal referência as esculturas em terracota de Jorge Vieira. Os objetos criados por Jorge Vieira transmitem-nos algo de primitivo, arcaico ou arqueológico. Algo que nos desperta ecos de uma “terra antiga”.

A obra de Jorge Vieira funciona como uma metáfora que opera no deslocamento entre o sentido histórico das suas referências e o imaginário do artista, possibilitando novas relações formais e simbólicas. Os seus objetos, ou esculturas, funcionam como arquétipos que, modernamente, sugerem o ídolo das antigas civilizações.


Partindo de exemplos concretos de cerâmicas da coleção arqueológica do Museu Geológico, procuraremos explorar alguns dos aspectos e problemáticas relacionados com a produção, funcionalidade, estilo, dimensão ritual e simbólica das cerâmicas pré-históricas.


A arqueologia tem vindo sucessivamente a reconhecer o potencial simbólico da cultura material cerâmica, encarando-a como veículo de mensagens, que é necessário descodificar, e como um poderoso meio metafórico através do qual as pessoas se exprimiam e refletiam o seu mundo.
Com a proliferação, ao longo do tempo, das formas cerâmicas e dos estilos decorativos, a produção cerâmica adquiriu uma dualidade de funções – primeiro e maioritariamente como produto utilitário, mas também como símbolo social de expressão cultural, revestindo-se tanto a sua produção como a sua utilização de significados simbólicos e rituais.
A produção cerâmica, como obra exclusivamente humana, torna-se, em muitas culturas, metáfora privilegiada do próprio homem e da sua cosmovisão.


De particular interesse revestem-se as cerâmicas, atribuíveis ao Neolítico Antigo, depositadas na gruta da Furninha enquanto espólio votivo. Segundo Mariana Diniz (1994, p.65), a diversidade de formas, de dimensões e de decorações encontrada parece indicar que as peças foram sendo utilizadas ao longo da sua “biografia cultural” com diferentes funções. Utilizadas, por princípio, no consumo, processamento e armazenamento de alimentos, estas cerâmicas de uso quotidiano, uma vez colocadas em contextos funerários, adquirem um novo significado ritual.

Com o objectivo de analisar os processos técnicos do fabrico da cerâmica pré-histórica, dedicámo-nos à experimentação e apropriação da tecnologia cerâmica. Neste sentido, procurámos, a partir da observação dos vestígios de manufactura presentes nos materiais arqueológicos, assim como de descrições históricas e etnográficas de processos similares ao fabrico pré-histórico de cerâmica, realizar repetições experimentais desse mesmo processo de fabrico, para o aplicar na produção de trabalho escultórico contemporâneo, o nosso principal desafio.

Esta conexão entre Arte e Arqueologia pode ser um processo de abordagem muito fértil para a arqueologia cognitiva e para a arte contemporânea. A partir da investigação sobre os possíveis pensamentos, decisões, motivações e ideias existentes por trás de cada objecto e da reprodução dos respectivos processos tecnológicos, poderá a arte contemporânea encontrar novas linguagens plásticas, algumas das quais há muito tempo perdidas.
O olhar do artista sobre os vestígios materiais provenientes de sítios arqueológicos é naturalmente diferente do olhar do arqueólogo, geralmente mais centrado nas questões tipológicas e cronológicas. O olhar do artista contemporâneo entra nos gestos dos produtores, procura recriá-los e senti-los como seus, tenta entrar nos pensamentos íntimos por trás de cada gesto, investiga a função prática e simbólica dos artefactos.

Propusemo-nos à criação de peças que evocam a arte e a cultura de outros lugares e de outros tempos. Peças que, pela morfologia e técnica de produção, nos transportam a uma época em que a que a cerâmica era uma tecnologia de ponta, uma conquista tecnológica.
Partindo de fragmentos de uma realidade perdida, as formas que agora surgem por mãos contemporâneas, põem o tempo presente em comunicação com passados remotíssimos. Pela transfiguração, repensam-se e reinventam-se, num novo quadro, as velhas novidades neolíticas. Surgem objectos arquetípicos, reconhecíveis, mas depurados das antigas funcionalidades e revestidos de novas simbologias. Artefactos com significados sempre múltiplos, com sentidos construídos e reconstruídos…

Numa Pré-História revisitada, desenterrada sob um novo olhar, procuramos, com esta investigação, criar obras que coloquem o acento no primitivismo/arqueologismo como referência formal e conceptual.
Num salto entre milénios, que parte de uma atracção pelas origens, pela arte antes da arte, pelo que foi destruído pelo tempo, as peças agora criadas fazem uma conexão entre os processos criativos dos objectos mais arcaicos ou remotos e a criação mais contemporânea. Situadas num “tempo fora do tempo”, respondem, além de um programa ou doutrina, a um fascínio pelos artefactos vindos de um mundo submerso, extinto e enigmático.
Em termos científicos e artísticos, este estudo interessa, sobretudo, pela sua multidisciplinaridade, na medida em que propicia um original cruzamento de saberes entre a produção artística e a investigação arqueológica.

Com esta investigação, procuramos não só contribuir para uma visão alargada sobre a produção cerâmica pré-histórica, como também encontrar o seu espaço na teoria da arte e mostrar a relevância do seu estudo numa possível produção artística contemporânea.
Pensamos que, desta forma, o trabalho artístico produzido suscita novas abordagens no domínio da arte contemporânea e novos olhares e perspectivas relativamente aos objetos cerâmicos estudados, permitindo que se abram caminhos inovadores de reinterpretação e valorização do património arqueológico.

Como desenvolver uma obra de cerâmica artística contemporânea em diálogo com o estudo de recipientes cerâmicos pré-históricos será, assim, em síntese, o cerne do nosso trabalho.



“A arte que desempenha o seu papel tradicional de antecipação tem também a capacidade de se relacionar com modos de agir e de pensar que ressoam muito profundamente no imaginário dos homens e os enviam às raízes mesmas da sua civilização.”
(Tiberghien, 2009)

O diálogo entre o antigo e primordial e a arte contemporânea é um resultado esperado desta investigação. Os museus de arqueologia, com a sua sugestão de magia de um fabuloso tempo ancestral, estão na base da criação, em “estilo adaptado” ou “à maneira antiga”, de esculturas arqueologizantes, gérmenes da época actual.

Liks:

Bibliografia:

BARLEY, N. (1994). Smashing Pots. Feats of Clay from Africa. London: British Museum Press.
DINIZ, M. (1994). Acerca das Cerâmicas do Neolítico Antigo da Gruta da Furninha (Peniche). Dissertação de Mestrado. Universidade de Lisboa: Faculdade de Letras.
RENFREW, C. (2006). Figuring it Out: what are we? Were we come from? The Parallel Visions of Artists andArqueologists. London: Thames & Hudson.
TIBERGHIEN, G. (2009) “Natureza, arte e formas arcaicas. In Resumo das conferências A Arte antes e depois da Arte. No ano da inauguração do Museu do Côa. Lisboa: Culturgest.

Povoado das Terras do Risco | Arrábida | Sesimbra




Reconstituição hipotética do povoado da Idade do Bronze das Terras do Risco
Desenho de Mariana Croft
Na sequência dos trabalhos de prospecção (2007-2009) para a nova Carta Arqueológica do Concelho de Sesimbra, publicada em Setembro de 2009 sob o título O Tempo do Risco (Calado et al., 2009), foi identificado, no vale adjacente à encosta norte da Serra do Risco (Sesimbra), na singular paisagem localmente conhecida por “Terras do Risco” e “Terras do Meio”, um vasto povoado aberto, sem aparentes estruturas amuralhadas ou fossos, ocupando uma área de cerca de 100 hectares, «o que o coloca entre os mais vastos da Europa» (Calado et al., 2009, p. 47). Os materiais de superfície identificados, um pouco por todas as janelas de prospecção permitidas pela densa vegetação arbustiva, muito fragmentados e em relativa abundância, sugeriram uma cronologia relativa correspondente aos finais da Idade do Bronze.

Porém, a singular dimensão do povoado do Risco não foi imediatamente aferida. Em 2007 foi identificado um primeiro núcleo artefactual, denominado de “povoado das Marmitas”, que na verdade representava apenas a ponta de um imprevisível iceberg. Ulteriormente, em 2009, numa fase final das prospecções, dedicada à revisão em áreas de difícil prospectabilidade, e para grande surpresa da equipa, foi sendo revelado, em cada clareira da vegetação, «um povoado de dimensões inauditas, descrevendo um arco de círculo, junto ao monumento da Roça do Casal do Meio (...). O povoado – que, entretanto, passámos a designar por povoado do Risco – estende-se por uma área, mais ou menos contínua, que abrange grosso modo cerca de 100 ha» (ob. cit., p. 29).
O povoado define-se nas vertentes e imediações de um vale fluvio-cársisco (“polje”), de elevada riqueza de solos e aquíferos, dos quais se destaca a ribeira das Marmitas. O acesso ao mar e aos seus recursos era relativamente fácil.
Por agora, os dados tendem a favorecer a centralidade regional do povoado do Risco, atendendo à sua excepcional dimensão, à evidente proximidade do monumento funerário da Roça do Casal do Meio e de outros povoados de altura, dos quais se destaca a intervisibilidade com o Castelo dos Mouros. Na sua envolvente, e em presumível relação, além da Roça do Casal do Meio, registaram-se duas cavidades: a Lapa da Ovelha ou Nazaré (ou ainda, da Cereja, topónimo dado pela equipa – “a Cereja no topo do povoado”), aberta a meia encosta na vertente oriental do vale, acima da Roça do Casal do Meio, numa perspectiva dominante sobre todo o povoado e a escassos metros de um assinalável núcleo artefactual, a merecer, por tudo isto, uma expectável sondagem; e, sobre o mar, na vertente sul da serra do Risco, na cota dos 260 metros da mais elevada arriba calcária da Europa continental, um arrebatador monumento natural – a Lapa da Cova. Os dados da escavação (no prelo), na qual o signatário participou, apontam para uma ocupação ritual – um santuário fenício da 1.ª Idade do Ferro – tendo sido exumados, além de abundantes artefactos de origem mediterrânea (cerâmica de roda, contas de colar, objectos de bronze e ouro), alguma cerâmica manual indígena, de aparente produção local e atribuível ao Bronze Final.


1. Gruta da Ovelha (ou Nazaré)
2. Povoado da Idade do do Bronze
3. Povoado do Neolítico Antigo
4. Povoado do Neolítico Final/Calcolítico
5. Roça do Casal do Meio e outras estruturas circulares
6. Marmitas do Gigante
7. Píncaro (ponto mais elevado da serra do Risco)
8. Lapa da Cova
9. Sumidouro da Brecha

Ainda na envolvente do Risco, e além das referidas cavidades, de assinalar outro incontornável monumento natural – as Marmitas do Gigante. Trata-se de um fenómeno de erosão hídrica causado pelo fluxo da ribeira das Marmitas ao longo de um afloramento calcário que ganhou, assim, formas ímpares. O sítio reveste-se de inegável potencial enquanto santuário natural, bem ao jeito das paisagens de eleição da Idade do Bronze. De referir, por fim, numa cota inferior em relação ao grosso dos vestígios atribuíveis ao Bronze Final, dois núcleos de povoamento que documentaram fragmentos cerâmicos e artefactos líticos de épocas anteriores: um povoado do Neolítico nos Prados do Risco, junto à base sedimentar do vale; e um povoado do Neolítico Final/Calcolítico – povoado dos Ouriços (Calado et al., 2009, p. 99).

«Mas que estatuto atribuir a este estranho povoado? Lugar central de um sistema de povoamento, onde viviam as elites, ou, pelo contrário, um povoado dependente dos povoados de altura, fortificados, como o referido Castelo dos Mouros?» (ob. cit., p. 29). É de admitir, à imagem do modelo de povoamento proposto para o Alentejo Central, que este grande povoado aberto se encontraria associado a um vasto complexo geoestratégico de povoamento, do qual fariam parte outros sítios arqueológicos atribuíveis ao Bronze Final, como os “clássicos” povoados de altura – Castelo dos Mouros, Serra da Cela e Valongo – a par das respectivas necrópoles/santuários da Roça do Casal do Meio, da Lapa do Fumo, da Lapa da Furada e da Gruta do Médico; além de expectáveis outros sítios, ainda por descobrir, estrategicamente implantados ao longo do território da serra da Arrábida. Recorde-se que Carlos Tavares da Silva e Joaquina Soares, no contexto do Bronze do Sudoeste, haviam sugerido a hipótese de que «é possível que povoados como os do Pessegueiro e da Quitéria, sem condições de defesa, tenham a sua contrapartida em povoados fortificados do interior, ainda não identificados, onde residiria a classe dirigente» (Silva e Soares, 1981, p. 180). Por agora, os dados tendem a favorecer a centralidade regional do povoado do Risco, atendendo à sua excepcional dimensão, à evidente proximidade e relação com o monumento funerário da Roça do Casal do Meio e à sugestiva proximidade com outros povoados de altura, dos quais se destaca a intervisibilidade com o Castelo dos Mouros.

Há que sublinhar o facto de tratarmos de uma vasta área contida entre o cabo Espichel e Setúbal, entre o Tejo e o Sado, apresentando férteis vales, boas áreas de pastoreio, uma grande diversidade e abundância de recursos cinegéticos, de fácil acesso ao recursos hídricos e marinhos, com algumas baías favoráveis à implantação de eventuais estabelecimentos portuários, além de excelentes condições topográficas de defesa, domínio paisagístico e de protecção das elites locais. Um singular território que poderá ter assumido contornos de “Proto-Estado”, «na semelhança do que acontecia com Micenas, o povo das Guerras de Tróia, e contemporâneo deste povo da Arrábida» (Calado et al., 2009, p. 47).

Contudo, estas favoráveis condições e a excepcionalidade do povoado do Risco têm de ser contrastadas com a informação relativa a outras áreas limítrofes, particularmente com o Alentejo. Não nos podemos esquecer do facto de a Arrábida não apresentar potencial mineiro, importando o cobre e o estanho do Alentejo e das Beiras, respectivamente. Admitindo o metal como principal fonte de poder das emergentes elites do Bronze final, e mesmo descontando a falta de escavações nos sítios identificados, a Arrábida não parece evidenciar actividade metalúrgica, restando-lhe o papel de intermediário comercial nesta cadeia – mineração, metalurgia e comercio. Esta hipótese é reforçada pela sua dominante situação face às preferenciais vias naturais de trânsito inter-regional (entrada e saída de produtos): os estuários do Tejo e do Sado, as respectivas bacias hidrográficas e os festos associados – «claro que nesta equação, importa considerar outros vectores de peso, nomeadamente a importância relativa da foz do Tejo (Olisipo e Almaraz) e da foz do Sado (Setúbal e Alcácer do Sal), mas também de outras instalações litorais como Santa Olaia, a Norte, ou Castro Marim, a Sul. Para além do litoral andaluz, claro» (Calado et al., 2009, p. 30). Em troca, as populações da Arrábida expediam os seus excedentes cerealíferos, «talvez os únicos bens susceptíveis de serem produzidos excedentariamente na Baixa Estremadura» (Cardoso, 2000, p. 67). Por fim, complementarmente aos circuitos trans-regionais, há que recuperar as dinâmicas das grandes rotas: «do chamado Bronze Atlântico, sem esquecer os velhos caminhos do Mediterrâneo» (Calado et al., 2009, p. 29).

Em suma, e tendo em conta a informação disponível à data – uma topografia de implantação de cota baixa, sem aproveitamento de condições naturais de defesa, e não revelando, aparentemente, qualquer tipo de estrutura defensiva; uma excepcional dimensão, sem paralelos conhecidos no contexto peninsular, não se traduzindo numa boa densidade de materiais de superfície, pelo contrario, adivinhando-se mesmo estratigrafias “magras” – tudo parece sugerir um grande povoado de curta duração, «feitas todas as contas, esta é, neste momento, a leitura que nos parece mais apropriada» (ob. cit., p. 29).
A aparente curta duração do povoado do Risco e a pouco expressiva ocupação dos inícios da Idade do Ferro, poderá explicar-se pela profunda reorganização de um modelo de povoamento, face aos novos impulsos sociais, culturais e políticos aportados do Mediterrâneo, à imagem do verificado no Alentejo Central – os grandes povoados eriçados na paisagem foram abandonados, na sua maioria, dispersando-se as populações por pequenos “casais agrícolas”, sem preocupações defensivas, numa aparente antecipação da Pax Romana, faltando, «porém, determinar os mecanismos de coesão desse novo modelo de povoamento que, aliás, prosperou e floresceu durante alguns séculos» (ob. cit., p. 30).

Roça do Casal do Meio

Marmitas do Gigante


Serra do Risco



O Bronze Final na Região da Serra da Arrábida
(Setúbal/Sesimbra)
o Estado da Investigação e os Novos Dados
as Paisagens, as Grutas-Santuário, o Porto(inho) da Arrábida
e outros aspectos
(no prelo)
Ricardo Soares
(2012)
Dissertação de Mestrado em Arqueologia
Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa

Bibliografia:
CALADO, M.; GONÇALVES, L.; FRANCISCO, R.; ALVIM, P.; ROCHA, L.; FERNANDES, R. (2009) – O Tempo do Risco. Carta Arqueológica de Sesimbra. Sesimbra. Câmara Municipal.


CARDOSO, J. L. (2000) – Na Arrábida, do Neolítico Antigo ao Bronze Final. Actas do Encontro sobre Arqueologia da Arrábida. Lisboa: Instituto Português de Arqueologia [Trabalhos de Arqueologia, 14], p. 45-70.
SILVA, C. T.; SOARES, J. (1981) – Pré-História da Área de Sines. Trabalhos arqueológicos de 1972 a 1977. Lisboa, Gabinete da Área de Sines.