Com uma componente teórica, relacionada com a investigação arqueológica, complementada por uma parte prática, de domínio da tecnologia cerâmica, a presente investigação tem como objectivo principal a produção artística decorrente de ambas.
A conexão entre a produção artística contemporânea e a arqueologia é uma questão abordada, não só pela teoria da arte como também pela teoria arqueológica.
No âmbito da Arqueologia, salienta-se Colin Renfrew que, em Figuring it Out – The parallel Visions of Artists and Archaeologists (2006), propõe uma convergência entre Arte e Arqueologia. Renfrew explora a possibilidade de uma visão paralela entre artistas e arqueólogos, numa convergência rumo à compreensão do mundo material. O seu objectivo é tentar olhar para a arte como arqueologia e para a arqueologia como arte, numa procura da interação entre as duas, nas quais, de diferentes maneiras, se procura investigar a condição humana, numa criativa analogia.

No que respeita à cerâmica contemporânea, e já mais próximo da linha de trabalho que nos propomos desenvolver, temos como principal referência os trabalhos em terracota de Gabriel Orozco e, no contexto português, a obra de Jorge Vieira.

Os trabalhos de Gabriel Orozco, como por exemplo, My Hands Are My Heart, Palmplate, Marble Pot, Hand-Ball, Hand Pot, anunciam um retorno da escultura à produção artesanal. Invocam as práticas primitivas da produção de objetos utilitários e conotam a prática da escultura com um valor cultural arcaico, quase arquetípico.
No âmbito da arte portuguesa, apontamos como principal referência as esculturas em terracota de Jorge Vieira. Os objetos criados por Jorge Vieira transmitem-nos algo de primitivo, arcaico ou arqueológico. Algo que nos desperta ecos de uma “terra antiga”.
A obra de Jorge Vieira funciona como uma metáfora que opera no deslocamento entre o sentido histórico das suas referências e o imaginário do artista, possibilitando novas relações formais e simbólicas. Os seus objetos, ou esculturas, funcionam como arquétipos que, modernamente, sugerem o ídolo das antigas civilizações.
A arqueologia tem vindo sucessivamente a reconhecer o potencial simbólico da cultura material cerâmica, encarando-a como veículo de mensagens, que é necessário descodificar, e como um poderoso meio metafórico através do qual as pessoas se exprimiam e refletiam o seu mundo.
Com a proliferação, ao longo do tempo, das formas cerâmicas e dos estilos decorativos, a produção cerâmica adquiriu uma dualidade de funções – primeiro e maioritariamente como produto utilitário, mas também como símbolo social de expressão cultural, revestindo-se tanto a sua produção como a sua utilização de significados simbólicos e rituais.
A produção cerâmica, como obra exclusivamente humana, torna-se, em muitas culturas, metáfora privilegiada do próprio homem e da sua cosmovisão.
De particular interesse revestem-se as cerâmicas, atribuíveis ao Neolítico Antigo, depositadas na gruta da Furninha enquanto espólio votivo. Segundo Mariana Diniz (1994, p.65), a diversidade de formas, de dimensões e de decorações encontrada parece indicar que as peças foram sendo utilizadas ao longo da sua “biografia cultural” com diferentes funções. Utilizadas, por princípio, no consumo, processamento e armazenamento de alimentos, estas cerâmicas de uso quotidiano, uma vez colocadas em contextos funerários, adquirem um novo significado ritual.
Com o objectivo de analisar os processos técnicos do fabrico da cerâmica pré-histórica, dedicámo-nos à experimentação e apropriação da tecnologia cerâmica. Neste sentido, procurámos, a partir da observação dos vestígios de manufactura presentes nos materiais arqueológicos, assim como de descrições históricas e etnográficas de processos similares ao fabrico pré-histórico de cerâmica, realizar repetições experimentais desse mesmo processo de fabrico, para o aplicar na produção de trabalho escultórico contemporâneo, o nosso principal desafio.
Esta conexão entre Arte e Arqueologia pode ser um processo de abordagem muito fértil para a arqueologia cognitiva e para a arte contemporânea. A partir da investigação sobre os possíveis pensamentos, decisões, motivações e ideias existentes por trás de cada objecto e da reprodução dos respectivos processos tecnológicos, poderá a arte contemporânea encontrar novas linguagens plásticas, algumas das quais há muito tempo perdidas.
O olhar do artista sobre os vestígios materiais provenientes de sítios arqueológicos é naturalmente diferente do olhar do arqueólogo, geralmente mais centrado nas questões tipológicas e cronológicas. O olhar do artista contemporâneo entra nos gestos dos produtores, procura recriá-los e senti-los como seus, tenta entrar nos pensamentos íntimos por trás de cada gesto, investiga a função prática e simbólica dos artefactos.
Propusemo-nos à criação de peças que evocam a arte e a cultura de outros lugares e de outros tempos. Peças que, pela morfologia e técnica de produção, nos transportam a uma época em que a que a cerâmica era uma tecnologia de ponta, uma conquista tecnológica.
Partindo de fragmentos de uma realidade perdida, as formas que agora surgem por mãos contemporâneas, põem o tempo presente em comunicação com passados remotíssimos. Pela transfiguração, repensam-se e reinventam-se, num novo quadro, as velhas novidades neolíticas. Surgem objectos arquetípicos, reconhecíveis, mas depurados das antigas funcionalidades e revestidos de novas simbologias. Artefactos com significados sempre múltiplos, com sentidos construídos e reconstruídos…
Numa Pré-História revisitada, desenterrada sob um novo olhar, procuramos, com esta investigação, criar obras que coloquem o acento no primitivismo/arqueologismo como referência formal e conceptual.
Num salto entre milénios, que parte de uma atracção pelas origens, pela arte antes da arte, pelo que foi destruído pelo tempo, as peças agora criadas fazem uma conexão entre os processos criativos dos objectos mais arcaicos ou remotos e a criação mais contemporânea. Situadas num “tempo fora do tempo”, respondem, além de um programa ou doutrina, a um fascínio pelos artefactos vindos de um mundo submerso, extinto e enigmático.
Em termos científicos e artísticos, este estudo interessa, sobretudo, pela sua multidisciplinaridade, na medida em que propicia um original cruzamento de saberes entre a produção artística e a investigação arqueológica.
Com esta investigação, procuramos não só contribuir para uma visão alargada sobre a produção cerâmica pré-histórica, como também encontrar o seu espaço na teoria da arte e mostrar a relevância do seu estudo numa possível produção artística contemporânea.
Pensamos que, desta forma, o trabalho artístico produzido suscita novas abordagens no domínio da arte contemporânea e novos olhares e perspectivas relativamente aos objetos cerâmicos estudados, permitindo que se abram caminhos inovadores de reinterpretação e valorização do património arqueológico.
Como desenvolver uma obra de cerâmica artística contemporânea em diálogo com o estudo de recipientes cerâmicos pré-históricos será, assim, em síntese, o cerne do nosso trabalho.