Ribāt da Arrifana | Ponta da Atalaia | Aljezur



Em 2001, Mário e Rosa Varela Gomes, arqueólogos do Instituto de Arqueologia e Paleociências da Universidade Nova de Lisboa, identificaram, na Península hoje denominada por Ponta da Atalaia, na Arrifana de Aljezur, um convento-fortaleza de monges-guerreiros (murābitūn) – o ribāt al-Rihana. Fundado por Ibn Qasī (Abūl – Qāsim Ahmad Ibn al-Husayn Ibn Qasī), a sua existência já era conhecida através de remotas referências bibliográficas, subsequentes ao desaparecimento daquele conhecido teólogo sufi e líder político, em meados do século XII. Cruzando a informação histórica e arqueológica, tudo indica que este estabelecimento islâmico terá sido edificado em cerca de 1130, tendo sido definitivamente abandonado em 1151, com a morte do seu fundador.
Ibn Qasī, natural de Silves e originário de uma antiga e abastada família cristã, foi educado por mestres de Niebla, Sevilha e Silves, após uma juventude irrequieta de boémia e poesia, embora tendo depois desempenhado importantes cargos administrativos em Silves, então florescente capital do Gharb.
O ribāt da Arrifana constitui um raro conjunto de estruturas arqueológicas, até à data único em Portugal, sendo que, em toda a Península Ibérica, apenas se conhece outro exemplar desta natureza – o ribāt de Guardamar, situado no antigo delta do rio Segura (Alicante), na Costa Levantina. Este, embora mais antigo, cerca de um século, apresenta algumas afinidades com o da Ponta da Atalaia, nomeadamente na localização em península, junto ao mar, como na forma e dimensões de algumas das mesquitas identificadas.
Erigido sobre a Ponta da Atalaia, 6 km a poente de Aljezur, integra-se numa paisagem forte e expressiva, caracterizada pelo isolamento e largueza do horizonte atlântico, dominando, também, as vizinhas arribas costeiras e as terras envolventes. O espaço do ribāt encontrava-se simbolicamente hierarquizado através das diferentes estruturas do complexo edificado.
Os trabalhos arqueológicos, desenvolvidos desde 2001/2002, têm permitido identificar uma sucessão de mesquitas com mihrabs (nichos em forma de abside que indicam a direcção de Meca – qibla) e respectivos minaretes (torres de onde os fiéis eram chamados às orações, pelo menos cinco vezes ao dia), assim como um conjunto de dependências anexas, destinadas tanto aos monges como aos peregrinos. O espólio exumado não é abundante, quando comparado com arqueossítios islâmicos contemporâneos da região. Destacam-se as cerâmicas (de mesa, cozinha e armazenamento), embora também se tenham exumado artefactos metálicos (canudo-amuleto, dois rolos de chumbo, pendente, ferro de lança, etc.) e uma pequena conta de faiança.
O ribāt da Arrifana encontra-se presentemente em processo de classificação pelo IGESPAR, I.P.
Por fim, de referir as curiosidades de o topónimo “Atalaia” remeter para ocupações islâmicas, tendo amiúde sobrevivido até aos nossos dias em vários locais e em expressões como “estar de atalaia” (al-talai’â); enquanto o termo “ribāt” ainda ecoa na língua portuguesa em expressões como “tocar a rebate” – os piedosos muçulmanos tinham uma obrigação de “ribat” ou alerta.



ribāt da Arrifana, em Aljezur, foi classificado como Monumento Nacional (Dec. nº 25/2013), sendo o primeiro daquele concelho com tal categoria e um dos poucos que fazem parte do legado islâmico do actual território nacional.


Fontes:
  • Associação de Defesa do Património Histórico e Arqueológico de Aljezur - link
  • O Ribat da Arrifana (Aljezur, Algarve) - Resultados da campanha de escavações arqueológicas de 2002 (Rosa Varela Gomes e Mário Varela Gomes) - link

do MAGMA às ESTRELAS



Do magma às estrelas: elogio das coisas simples e antigas


por Manuel Calado


Fogo, ar, água, terra; terra, água, ar, fogo.


A cerâmica foi o primeiro material sintético usado pela humanidade. A transmutação dos elementos, uma forma eficaz de magia; o domínio da matéria pelo espírito.

Os primeiros potes foram os arquétipos dos caldeirões mágicos do nosso velho imaginário, os potes onde eram manipuladas as potiones; nos seus ventres bojudos, grávidos, os alimentos eram transmutados pelo fogo, pelo ar, pela água e pelo tempo.

Era nesses caldeirões mágicos que nasciam as bebidas sagradas, catalizadores privilegiados das viagens extáticas aos mundos dos deuses e dos antepassados.

Os potes, como obras exclusivamente humanas, tornaram-se, em muitas culturas, metáforas privilegiadas do próprio homem.

Materiais transformados pelo Homem e que serviam para transformar os alimentos, preparando-os para, no corpo humano, participarem nessa misteriosa alquimia de transformar a matéria no fogo dos sonhos.

Foram, mais tarde, as matrizes dos crisóis. O metal nasce na terra e manifesta-se através do fogo, em peças de cerâmica. Hierofanias.
A cerâmica neolítica era uma ferramenta de magia criada por artes mágicas. Era, por isso, certamente, um meio de expressão artística.

A forma dos objetos era já, só por si, uma manifestação de criatividade, carregada de significados e evocações. Mas, além disso, devido à sua plasticidade, a cerâmica era um suporte particularmente apto para receber grafismos.

A cerâmica, nesse sentido, era equivalente à arte rupestre.

E a cerâmica não é só escultura: desde as suas origens mais remotas, a gravura e a pintura fazem parte dela.

Sara Navarro percorreu um longo caminho: recuou 7000 anos até ao tempo em que a cerâmica era uma tecnologia de ponta. Uma conquista tecnológica. Partindo de uma realidade perdida, de que apenas podemos suspeitar os contornos, ela propôs-se transfigurar os potes, reencontrando, nesse processo, em que o presente e o passado se interpenetram, as emoções perdidas do protagonismo da terra.

Criando corpos inusitados, repensados, reinventando, num quadro novo, as velhas novidades neolíticas. Objetos arquetípicos, reconhecíveis, mas depurados das antigas funcionalidades e simbologias.

Corpos adâmicos, sensuais. Recuperando essa ligação quase perdida às matérias primordiais e eternas. Objetos femininos, ventres búdicos. Redondos como o Sol e a Lua. Eróticos. Maternais. Mamilados. Umbilicados. Objetos de desejo. Macios. Lembrando um tempo de presumida inocência. Lúdico.

‘Arte-factos’. Com significados sempre múltiplos, com sentidos construídos e reconstruídos...