Santuário de São Miguel da Mota

Alandroal Nossa Sr.ª da Conceição

Visita guiada pelo Professor Manuel Calado e pelo Professor Moisés Espírito Santo,
no âmbito do 1.º Congresso Internacional 'Santuários'
Alandroal, 12 de Setembro de 2014
Classificado como Imóvel de Interesse Público desde 1997, processo que define a zona de afectação como “non aedificandi”, este arqueossítio localiza-se num outeiro sobreelevado, perto da ribeira de Lucefecit, tendo sido alvo, desde finais do século XIX, de algumas intervenções arqueológicas que permitiram a recolha de mais de oito centenas de epígrafes latinas e estatuária votiva, entre as ruínas da ermida de São Miguel, cuja planta foi levantada por Gabriel Pereira, em 1889, e os vestígios das estruturas do santuário, cuja fundação está atribuída à primeira centúria da nossa era.

Aparentemente, do santuário apenas restou uma plataforma quadrangular, permanecendo no local vestígios de fragmentos e artefactos marmóreos, sendo que um estudo recente (2002) aponta para uma sobreposição construtiva entre os dois monumentos, com reutilização na ermida dos elementos construtivos/arquitectónicos pertencentes ao santuário. A área circundante aparenta estruturar-se em plataformas, onde foram recuperados materiais cerâmicos consentâneos com uma ocupação romana exclusiva do espaço, estando ausente espólio da Idade do Ferro e autóctone, constatação que refuta a tese de um culto pré- existente.

As últimas investigações topográficas e arqueológicas efectuadas por Amílcar Guerra, Thomas Schattner, Carlos Fabião e Rui Almeida, iniciadas em 2002, no âmbito de um projecto de investigação, permitiram confirmar as observações publicadas por Manuel Calado, em 1993, e confrontar alguns dos pressupostos avançados por Leite de Vasconcelos, a quem se devem os primeiros trabalhos arqueológicos no local, destacando-se o abundante acervo epigráfico e escultórico recolhido em 1890 e nas intervenções posteriores.

A escavação recentemente efectuada permitiu reconhecer que o objectivo a que se propunha Leite de Vasconcelos implicara a demolição da ermida cristã, de forma a recolher todos os elementos nela reaproveitados provenientes do santuário, embora não tenham sido atingidos alguns alicerces, onde os trabalhos recentes vieram a detectar sepulturas, estatuária e aras votivas epigrafadas dedicadas a Endovélico.

Ainda assim, a quantidade de informação fornecida sobretudo pelo acervo epigráfico permite-nos percepcionar a abrangência da divindade e contextualizar o culto. Quanto ao primeiro ponto, os estudos efectuados apontam para uma divindade latina, tradicionalmente relacionada com a presença de uma fonte ou fontes que brotariam no santuário, onde existiria um corpo sacerdotal e funcionários dedicados a receber os ofertantes e a proceder aos sacrifícios e rituais; por outro lado, trata-se de um deus tutelar, vocacionado para atender os pedidos dos seus fiéis, conforme atestam as fórmulas e relevos simbólicos expressos nos registos ali deixados.

José Cardim Ribeiro, no seu texto publicado no extenso catálogo da exposição Religiões da Lusitânia (Ribeiro, 2002, p. 79-90) resume o carácter poderoso desta divindade, praesentissimi et praestantissimi numinis, expressão que Sextus Cocceius Craterus Honorinus, eques romanus utilizou para qualificar o deus.

É portanto uniformemente reconhecida a necessidade de dar continuidade às investigações sobre o santuário de Endovélico, património de excepção que ultrapassa consideravelmente as evidências de qualquer outra divindade “indígena” nas províncias europeias (Encarnação, 1984, p. 801).


Referências bibliográficas

CALADO, M. (1993) - Carta Arqueológica do Alandroal, Alandroal.
ENCARNAÇÃO, J. d’ (1984) - Inscrições Romanas do Conventus Pacensis, Coimbra.
GUERRA, A. et al. (2003) - Novas investigações no santuário de Endovélico (S. Miguel da Mota, Alandroal): a campanha de 2002. Revista Portuguesa de Arqueologia, 6, nº 2, Lisboa, p. 415-479.
PEREIRA, G. (1889) - O Santuário de Endovélico. Revista Archeologica, III (9-10), Lisboa, p. 145-149.
RIBEIRO, J. C. (2002) - Endovellicvs. Religiões da Lusitânia, Loquuntur Saxa, M.N.A., Lisboa, p. 79-90.
VASCONCELOS, J. L. (1890) - O Deus Lusitano Endovélico, I notícia sucinta, Dia, reproduzida em Opúsculos, V, Imprensa Nacional, Lisboa, p. 197-206.




Endovellicvs

«Cabeça de homem barbado onde sobressaem os olhos abertos de forma amendoada, a boca fechada de lábios finos, o cabelo em madeixas cobrindo parte da testa e tapando parcialmente as orelhas. O nariz e a porção inferior da barba estão mutilados. A concepção iconográfica de escultura, realizada segundo modelos clássicos, patente nomeadamente na majestade da cabeça e na sua expressão de bondade, levaram a maioria dos autores a interpretá-la como representação de Endovélico, divindade indígena cultuada em S. Miguel da Mota. No período romano, Endovélico, protector da saúde, foi identificado provavelmente com Serápis ou Esculápio, deuses salutíferos do panteão clássico. O seu culto está atestado por numerosas inscrições epigráficas votivas encontradas nas ruínas do outeiro de S. Miguel da Mota, perto de Terena, no concelho de Alandroal (Alentejo). Trata-se de uma divindade tópica, isto é, protectora da região onde a adoravam (numen loci) e cujo culto estava evidentemente circunscrito a ela.»

Ficha do Catálogo de Escultura Romana do MNA, da autoria de José Luís de Matos.

«O que sabemos hoje desta divindade resulta essencialmente de um conjunto de mais de 80 inscrições latinas recolhidas ao longo de quatrocentos anos no local (São Miguel da Mota - n.a.). De facto, a D. Teodósio de Bragança devemos a primeira recolha epigráfica daí proveniente, remontando ao séc. XVI. André de Resende, Frei Bernardo de Brito e mais recentemente Leite de Vasconcellos e Scarlat Lambrino, mas também muitos outros autores estrangeiros ocuparam-se do estudo desta divindade, sem dúvida um caso único no mundo romano, pela quantidade de testemunhos associados a um único santuário.
O Nome apresenta variantes, por vezes significativas - Endovelicus, Endovellicus, Indovelicus, Enobolicus - de significado ainda muito discutido, sendo as suas mais divulgadas interpretações "muito negro" e "muito bom". Referem-se, em conformidade com isso, os seus poderes de divindade tutelar, mas também de natureza ctónica, que poderia igualmente manifestar-se por oráculos, ou infernal.
Apesar da diversidade e abundância dos vestígios que chegaram até nós, é ainda pouco o que sabemos de um culto que atingiu proporções inéditas; por isso se espera que futuros trabalhos venham contribuir para enriquecer o conhecimento a respeito das religiões antigas e de Endovélico em particular .»

Amílcar Guerra in Carta Arqueológica do Alandroal (Calado, M., 1993, p. 61-62)

Santuário de Nossa Senhora da Boa Nova

Alandroal Terena São Pedro

A Capela da Boa Nova, também conhecida por Santuário de Nossa Senhora da Boa Nova, situa-se em Terena (Alandroal | Évora).

Trata-se de um santuário mariano de grande antiguidade que, segundo alguns autores, terá resultado da cristianização de remotos cultos pagãos, tendo em conta o "epicentro" dos vestígios de culto ao deus pré-romano (indígena) Endovélico que ainda hoje subsistem nas imediações da vila de Terena – o santuário natural da Rocha da Mina e o templo romano de São Miguel da Mota.

As referências históricas a este santuário remontam ao século XIII, uma vez que nas Cantigas de Santa Maria, do Rei Afonso X de Castela, existem algumas composições dedicadas a Santa Maria de Terena.

Erigido no século XIV, este santuário persiste como uma jóia da arquitectura religiosa portuguesa, chegando praticamente intacto aos nossos dias: um templo-fortaleza de planta cruciforme, rara em Portugal, construído em forte cantaria granítica, coroada de ameias muçulmanas. Nas fachadas norte, sul e poente, abrem-se pórticos de arcos ogivais góticos e estreitas frestas medievais, encimados por balcões defensivos com matacães (por onde se jorravam líquidos a ferver, em caso de ataque), decorados com pedras de armas reais portuguesas. O conjunto da fachada principal é ainda enobrecido por um singelo campanário, acrescentado no século XVIII. Originalmente o templo terá sido propriedade do padroado da Ordem de Avis, passando entretanto para a posse dos Condes de Vila Nova (de Portimão).

Contrastando com o pesado aspecto exterior, o interior surpreende-nos pela singeleza das linhas góticas e pelo aspecto amplo da nave, de planta de cruz grega, coberta por abóbadas de arcos quebrados. Os alçados da nave foram decorados no século XIX com um rodapé escaiolado e pinturas murais realizadas pelo pintor Silva Rato, de Borba, representando santos da devoção popular alentejana. O púlpito, de alvenaria, é da mesma época e levanta-se volumoso no transepto da igreja. Os altares colaterais, de São Brás e Santa Catarina, são de talha dourada do século XVIII.

Mais interessante é a decoração do presbitério, cuja abóbada está coberta de pinturas fresquistas representando os reis da primeira dinastia, até D. Afonso IV, e diversas cenas do Apocalipse de São João, obra encomendada pelos Condes de Vila Nova, Comendadores da Ordem de Avis. O retábulo, do século XVI, conserva entalhados belíssimas tábuas de estilo maneirista flamenguizante, representando a Anunciação e Assunção da Virgem, o Presépio, o Pentecostes e a Ressurreição de Cristo. Ao centro, em maquineta dourada , expõe-se a veneranda imagem de Nossa Senhora da Boa Nova, de roca e com o Menino Jesus ao colo. Nesta capela conservou-se acesa, durante séculos, a lâmpada votiva dos Duques de Bragança. Neste espaço, subsistem ainda algumas campas antigas e uma ara votiva ao deus Endonvélico, proveniente do templo de São Miguel da Mota (ver imagens).

A origem da invocação à Senhora da Boa Nova parece estar ligada à lenda da Formosíssima Maria (Dona Maria, Rainha de Castela), filha do Rei D. Afonso IV de Portugal, que se deslocou à corte portuguesa para solicitar a seu pai que auxiliasse o marido na Batalha do Salado. Reza a lenda que a Rainha se encontrava neste local, nas imediações de Terena, quando recebeu a boa notícia, tendo aí nascido a invocação “Boa Nova”. O culto prevalece bastante vivo, sendo este santuário palco de uma grande romaria que se celebra no primeiro fim de semana posterior à Páscoa. A importância desta romaria na região é de tal importância que a Segunda-Feira de Pascoela (dia principal da festa) é o feriado municipal do Concelho do Alandroal. O Santuário de Nossa Senhora da Boa Nova foi classificado Monumento Nacional em 1910.



Visita com o Professor Moisés Espírito Santo,
no âmbito do 1.º Congresso Internacional 'Santuários'
Alandroal, 12 de Setembro de 2014
Sala dos ex-votos

Ermida de Nossa Sr.ª da Guadalupe

Vila do Bispo | Raposeira 

«A este “objecto” que conseguiu resistir aos terramotos que assolaram a região, considerado monumento nacional, têm sido atribuídas diversas paternidades. Todas as fontes o classificam como romano-gótico. Alguns pensam-no como pertença dos Templários, datando-o do século XIII. Para outros é contemporâneo do Infante D. Henrique. Por último, Alberto Iria dá-o como provável do reinado de D. Fernando, chegando a atribuí-lo ao seu “mestre de pedraria” e “vedor de obras João Garcia Toledo” baseando-se numas iniciais encontradas na “mísula esquerda do primeiro arco”. Adianta a possibilidade de ter sido mandada construir por algum “rico lavrador” ou “armador de pesca” que se tivesse libertado, assim como sua mulher e filho (baseando-se na chave da abóbada com três rostos), do cativeiro sofrido às mãos dos mouros.
São imensas as referências a esta ermida durante o longo período em que o Infante D. Henrique permaneceu na região, nela ouvindo missa e recolhendo-se, sem que nunca se afirmasse ter ele estado ligado à sua fundação.»



Curioso será o facto de existir um menir junto desta ermida, atestando um remoto interesse por aquelas paisagens e uma certa continuidade ritual daquele local. Trata-se de um menir de grés, grosseiramente afeiçoado, com 167 cm de comprimento e 98 cm de largura.

BONUM HIEMIS SOLSTITIUM

"O Farol do Fim do Mundo" | Promontorium Sacrum - Sagres



















O Solstício de Inverno ocorre hoje, pelas 11:12 (hora de Lisboa). Este instante assinala o inicío da estação mais fria do ano, uma estação que se prolongará por 88,99 dias, até ao próximo Equinócio, no dia 20 de Março de 2013.

Em Astronomia, os Solstícios correspondem aos momentos em que o Sol atinge declinações extremas, ou seja, as posições máxima e mínima no céu em relação ao equador. A palavra tem origem latina (Solstitium) e está associada à ideia de que o Sol fica estacionário ao atingir essas posições.

Senhora de Altai

 

Documentário sobre o célebre enterramento do séc. V a.C. da chamada "Donzela do Gelo", ou "Senhora de Altai" - Ukok (Pazyrik, Sibéria) perto da fronteira chinesa. A sua descoberta deveu-se a Natalia Polosmak que, em 1993, identificou uma sepultura excepcionalmente preservada em permafrost. A jovem defunta de Ukok terá sido enterrada num sepulcro estruturado com troncos, juntamente com 6 cavalos sacrificados em sua honra, além de um importante "enxoval" constituído por objetos de ouro, bronze, madeira e seda. O seu corpo ainda conservava tatuagens com diversos motivos estilizados, designadamente figuras de cervídeos e de outros animais imaginários ou reais, presentes na paisagem e na mitologia dos povos das estepes.

O documentário passa em revista o achado arqueológico, as circunstâncias da sua descoberta, o processo de investigação, assim como as polémicas em torno da sua etnicidade (oriental vs europeia) e do seu futuro.



Pottery traditions of the Pattanam region - Kerala | India

Pattanam is a landlocked rural hamlet located in the Periyar Delta in Eranakulam district in the southern Indian state of Kerala. Pattanam, a name which means "coastal town", has ancient origins. It is said to have been first occupied around 1000 BC and continued to be active till the 10th century AC. 4 m thick soil of this village conceals the ancient maritime history of the world. The recent archaeological excavations undertaken by the Kerala Council for Historical Research [KCHR] at Pattanam suggests that the legendary seaport Muziri Pattanam, better known as Muziris, could have been located at this small village.



Artes & Ciências em diálogo...























The Age of Bronze in PreHistory | Art and Fiction

In one of the earliest commentaries on world history (c700 BC), the Greek writer, Hesiod, placed the “Age of Bronze” mid-way between the “Age of Gold” and the impoverished “Age of Iron,” in which he considered himself unfortunate enough to live. More than two and a half millennia later, the Danish archaeologist, Christian Jurgensen Thomsen, reinstated the idea of a “Bronze Age,” albeit within a very different conceptual paradigm. Thomsen’s “Three Age System” (Stone Age, Bronze Age, Iron Age) remains the basis for the chronological understanding of European prehistory to this day and, in the British Isles, the Bronze Age can be dated between c2400 BC and c750 BC. I have written, in my biography of Sir John Lubbock (www.mark-patton.co.uk/id1.html), of the process by which this framework was refined and popularised.

The Bronze exhibition currently showing at London’s Royal Academy of Arts (until 9th December) explores the aesthetic value of bronze as a material from earliest times down to the present day, displaying Bronze Age objects alongside some of the masterpieces of classical antiquity, and sculptures by artists including Cellini, Rodin and Picasso.

Recent works of historical fiction, including J.P. Reedman’s Stone Lord and J.S. Dunn’s Bending the Boyne, as well as my own Undreamed Shores, have set out to imagine the culture and motivations of the very first bronze workers in this part of the world. Those early bronze-smiths could surely not have conceived of a work on the scale of Cellini’s Perseus, which is one of the centrepieces of the exhibition, yet, in a very real sense, their efforts paved the way for this extraordinary grandeur.


I was naturally attracted to two of the earliest pieces in the exhibition, which I think have much to say about the real “Age of Bronze.”

The first of these objects is a figurine, believed to be of a tribal chief, from Late Bronze Age Sardinia (7th or 8th Century BC). Wherever bronze was first introduced, perhaps especially in communities that did not already have iron, it seems to have been accompanied by fundamental changes in social structure, with the increasing concentration of wealth and power in the hands of a few individuals. Unlike iron, copper and tin (the components of bronze) are relatively rare elements, and often need to be obtained by trade: those trade routes can be monopolised and defended by a combination of charisma, diplomacy and, where necessary, warfare. Though separated both by hundreds of years and by hundreds of miles, this Bronze Age Sardinian belongs recognisably to the same social milieu as Reedman’s Arthu, Dunn’s Elcmar and my Gwalchmai.


The second object is a model chariot, with a gilded disc usually assumed to represent the sun, found at Trundholm in Denmark, and dated to around 1400 BC. Sun worship may not have begun in the 3rd Millenium BC, and may not have been universal in the European Bronze Age, but the period certainly provides some striking testaments of it, and this is surely one of them. There are two other points of interest here. The world of Undreamed Shores (set around 2400 BC) includes neither domesticated horses nor wheeled transport; that of Stone Lord (set around five centuries later) includes both. Exactly when either was introduced is difficult to determine, but both seem to have made their appearance during the Bronze Age, and to have been well-established in most parts of Europe by the end of it. The trade and exchange that enabled the first bronze-smiths to obtain their raw materials almost certainly facilitated the spread of other ideas and technologies as well.