Artefactos da villa romana da Boca do Rio | Budens | Vila do Bispo

Espólio arqueológico proveniente da Villa Romana da Boca do Rio (Budens), em exposição permanente no Centro de Interpretação de Vila do Bispo  maravilhosos fragmentos de uma remota História Regional...

Fragmentos de estuque com frescos pintados na 2.ª metade do séc. IV d.C.,
figurando personagens masculinas romanas
Fragmentos de estuque pintados na 2.ª metade do séc. IV d.C.,
figurando um cavalo com arreios com botões metálicos
Fragmentos de estuque com frescos pintados na 2.ª metade do séc. IV d.C.
Fragmentos de cerâmica romana importada da Gália
(séc. IV d.C)
Fragmento de disco de lucerna romana com figuração de Vitória,
deusa do panteão romano tradicionalmente representada com asas,
envergando uma túnica drapeada e ostentando na mão direita uma coroa de louros
Numismas (moedas) romanas do séc. IV d.C., 
sendo possível vislumbrar, num dos exemplares, uma figura humana de difícil interpretação
Corrente de elos em oito (bronze)
Fragmentos de alfinetes de cabelo em osso
Pregos e cavilhas em bronze
Haste de bronze perfurada,
eventualmente de "tonteira" para pesca de moluscos marinhos (polvo, choco e lula)
Fragmento de fateixa em bronze 
Conjunto de anzóis em bronze
Conjunto  de agulhas de rede de pesca em bronze
Pesos de rede
(em pedra e bronze)
Dolium - grande contentor cerâmico 

Fotografias de Ricardo Soares

As Estátuas também morrem

Les Statues meurent aussi



Pequena jóia documental realizada em 1953 por Alain Resnai e Chris Marker.
Intitulado As Estátuas também morrem (Les Statues meurent aussi), o filme foi promovido pela revista Presence Africaine e contou com a colaboração de importantes museus europeus da época, designadamente o British Museum, a Maison de L´Homme de Paris e o Museu do Congo Belga.
Reprovando as antinomias do colonialismo europeu sobre África, o filme desenvolve uma interessante reflexão sobre o conceito de Arte, focando-se no etnocentrismo da distinção estabelecida entre a Arte e a Estética ocidentais e dos povos africanos. 
Centrada em si, esta preconceituosa visão eurocêntrica gerou arbitrárias montras culturais, segundo valores culturais europeus, não só alienando os objectos/artefactos do seu contexto, como também as pessoas que os produziram, num verdadeiro processo de “genocídio cultural” – a “estética do alheio”.
Num contexto determinado pela expansão colonial das potencias europeias, a apropriação dos objectos indígenas e a sua descontextualizada, caótica, extravagante, exótica e monstruosa  inclusão em “lojas de horrores”, “gabinetes de curiosidades”, colecções particulares e museus, através dos quais (supostamente) nos apropriamos de passados alheios, acabou por ter um interessante e inverso impacto de “aculturação artística”, da estética africana sobre a vanguarda das artes europeias, revelando uma atracção pelo “Primitivismo”, “Africanismo” e “Arqueologismo”, cumprindo, assim, uma função na mesma medida “depredadora” e “necrológica”, enunciada logo nas primeiras frases do documentário:

Quando os homens estão mortos, entram na historia. Quando as estatuas estão mortas, entram na arte. Esta botânica da morte, é o que nós chamamos A Cultura.

Uma desconcertante reflexão sobre o próprio conceito de Historia “Universal” enquanto discurso unilinear que exclui aquelas outras histórias “que não falam” – as histórias dos “Povos sem Historia” – uma noção declaramente etnocêntrica a que Eric Wolf dedicou o seu livro homónimo Europa e as Gentes sem Historia (1982).

Fonte:

How were the pyramids of egypt really built

Peter James, um engenheiro da Cintec Internacional em Newport, País de Gales, surpreendeu os arqueólogos com as suas novas teorias sobre as técnicas utilizadas para a construção das pirâmides da civilização egípcia.
Segundo se crê atualmente, as pirâmides foram construídas com mega blocos colocados a partir de enormes rampas de acesso.
Peter James argumenta que tal tarefa seria impossível, já que as rampas teriam que ter um comprimento desmesurado para permitir a obtenção do ângulo correto para os "tijolos" serem colocados àquelas alturas: “sob as teorias atuais, para colocar os dois milhões de blocos de pedra necessários para construção de uma pirâmide, os egípcios teriam que ter colocado um grande bloco a cada três minutos a partir de longas rampas”, afirma o investigar de engenharia que passou os últimos 20 anos a estudar estes monumentos. “Se isso acontecesse, haveria ainda sinais dessas rampas e até agora a arqueologia ainda não encontrou quaisquer evidências dessa existência”, sublinhou.
De acordo com as suas afirmações, dentro de uma pirâmide que estudou no Egipto a sua equipa descobriu uma tonelagem maciça de pequenas pedras sustentadas pelo tronco de uma velha palmeira. O engenheiro acredita que o interior das pirâmides são feitas de pequenos blocos, facilmente manipuláveis e que elas foram construídos a partir de dentro para fora e não de fora para dentro.

BONUM HIEMIS SOLSTITIUM

"O Farol do Fim do Mundo" | Promontorium Sacrum - Sagres
O Solstício de Inverno ocorreu hoje, dia 21 de Dezembro de 2013, pelas 17:11 (hora de Lisboa). Este instante assinala o início da estação mais fria do ano, uma estação que se prolongará por 88,99 dias, até ao próximo Equinócio, no dia 20 de Março de 2013, pelas 15:57 (hora de Lisboa).

Em Astronomia, os Solstícios correspondem aos momentos em que o Sol atinge declinações extremas, ou seja, as posições máxima e mínima no céu em relação ao equador. A palavra tem origem latina (Solstitium) e encontra-se associada à ideia de que o Sol fica estacionário ao atingir essas posições.

Uma âncora de pedra emersa da ruralidade algarvia ou simplesmente uma "poita de burro"?



O objecto aqui apresentado foi recentemente identificado, descontextualizado, surgindo "em seco", nas imediações de ruínas de um "casal agrícola" de época contemporânea/etnográfica. 
Produzida em grés (arenito) vermelho de Silves, apresenta uma forma grosseiramente triangular, com uma regular perfuração no seu extremo menor. 
A explicação funcional mais simples remete-nos para uma "poita de burro", ou seja, uma amarra de pedra perfurada que, horizontalmente, incorporava a parede de um edifício rural, destinando-se a prender animais. 
A outra possibilidade, considerando analogias mais costeiras, consiste na possibilidade de se tratar de uma ancora lítica que, por se encontrar distante dos seus mais expectáveis ambientes de ocorrência (marinhos, fluviais ou museológicos!), implicaria dois momentos distintos de utilização: a original função náutica e a sua posterior deslocação e reutilização em ambiente rural. De facto, existem diversos paralelos algarvios de âncoras líticas morfologicamente semelhantes ao monólito aqui apresentado. 
Em qualquer das hipóteses, esta pedra reveste-se de um conjunto de curiosos aspectos: no seu lado menor, no topo envolvente à perfuração, apresenta algumas depressões semiesféricas, prováveis "covinhas" de bigorna; uma série de alongados trilhos incisos, dispersos sobretudo na metade superior da peça e comummente associados a tarefas de afiar/amolar gumes de machados e de outras lâminas; e, no centro de uma das faces, uma depressão longitudinal de polimento. 
Trata-se de um conjunto de evidências que propõem uma ferramenta rural multiusos. As características geológicas do grés de Silves, um arenito de grande dureza e de grão-fino, foram exploradas desde a Pré-história até à actualidade, designadamente para tarefas de amolar gumes. 

A propósito das poitas e âncoras de pedra, antes e após o advento dos metais, o Homem recorreu a estes objectos para fixar as embarcações nas suas primárias actividades. Estão em causa blocos de pedra, geralmente de grosseira forma trapezoidal, circular ou triangular, apresentando perfurações no lado menor (1, 2 ou 3) ou entalhes laterais para a passagem do cordame de fixação.
O recurso ao metal em âncoras só se encontra documentado a partir do séc. VII a.C., enquanto a utilização da pedra é registada de forma continuada até aos dias de hoje, com variadíssimos casos de reutilização como poitas de fundeadouro, o que levanta grandes dificuldades de contextualização e datação.
Consciente da sua importância, Honor Frost elaborou uma tipologia para as âncoras líticas recuperadas por toda a orla do Mediterrâneo, procurando esboçar um mapa das rotas percorridas por embarcações desde a Idade do Bronze (Frost, 1972; 1985).
O estudo destas peças líticas permite identificar os fundeadouros e os “proto-portos” dos primeiros navegantes, oferecendo dados fundamentais acerca da dimensão das embarcações que fixavam, da sua proveniência e do carácter das navegações que praticavam – cabotagem ou alto-mar.
A utilização de âncoras de pedra encontra-se documentada, por exemplo, no célebre naufrágio do Bronze Final do promontório de Ulu Burun (Turquia), onde foram assinaladas sete grandes âncoras líticas (Pulak, 1994).
Também em Portugal têm sido identificados diversos casos, sobretudo trazidos “à tona” por pescadores e mergulhadores. Foi o caso do exemplar recuperado por mergulhadores ao largo do Farol da Guia, em Cascais (fig. 149). Trata-se de uma âncora lítica de dois orifícios, de forma trapezoidal bastante alargada, que pela sua tipologia foi enquadrada na segunda metade do 1.º milénio a.C. (Carvalho e Freire, 2007, p. 6, cf. Frost, 1970). No Museu do Mar Rei D. Carlos (Cascais), onde foi depositado, também se pode observar outro exemplar, de forma triangular e um orifício, recuperado no Algarve nos anos de 1980 (fig. 150 – Carvalho e Freire, 2007, p. 6).
De facto, até à data, parece ter sido nas costas algarvias que se identificou o maior número destas peças, designadamente em Albufeira (Simplício, 1999, p. 8-9). Ainda que muitas vezes descontextualizados, lá vão surgindo diversos exemplares expostos em alguns museus (Museu de Portimão, Museu Municipal de Arqueologia de Silves, etc.). 
Também no rio Sado (Carvalho e Freire, 2007, p. 7) e na Arrábida (mergulhos promovidos pela Câmara de Sesimbra) têm surgido notícias acerca destes objectos, porém não foi possível, até ao momento do fecho do presente texto, precisar melhor estas últimas informações orais.


Dissertação de Mestrado apresentada à Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa
Ricardo Soares
2012-2013

Projecto MAO - Menires do Algarve Ocidental

«(...) Na classe dos monumentos megalithicos [1] estão grupadas as mais typicas construcções da architectura prehistorica, formadas de grandes pedras toscas, comprehendendo os menhirs, alinhamentos, cromlecks e dolmens. O menhir é uma unica pedra tosca erguida a pino e cravada no solo, de fórma variavel e de diversas dimensões. D'estas pedras monumentaes consta existirem muitas in situ em todo o reino, mas ainda ninguem tratou de inventarial-as e descrevel-as [2] (...)».

«(...) No Algarve, já muito depois das explorações que dirigi por incumbencia do governo, recebi noticia de haver no cabeço de uns serros da freguezia de Vaqueiros algumas pedras altas, cravadas no solo e verticalmente erguidas. Não tenho informações de confiança a este respeito e por isso, embora as que recebi me possam inspirar a presumpção de haver alli um ou mais cromlecks, não ouso affirmar cousa alguma. Devo porém desde já indicar na freguezia serrana de Vaqueiros o elemento neolithico, em presença de uma collecção, que em seu logar descreverei, de silices lascados e de interessantes instrumentos de pedra polida alli achados em excavações ruraes, pertencentes ao sr. Antonio de Paulo Serpa, empregado na direcção das obras publicas do districto de Faro (...)».




[1] Diz-se ser este termo derivado do prefixo mega, que significa grande, e de lithos, pedra.

[2] Depois de escripto este capitulo, veiu á minha mão um trabalho impresso em 1881 na tyographia Lallemant, intitulado : Relatorio e mappas ácêrca dos edifícios que devem ser classificados monumentos nacionaes, apresenlados ao governo pela real associação dos architectos civis e archeologos porluguezes, em conformidade da portaria do ministerio das obras publicas de 24 de outubro de 1880. Este relatorio, servindo de resposta á portaria, dividiu os monumentos nacionaes (?) em seis classes, e na ultima registrou os prehistoricos. 

Em todo o reino ficaram pois indicados trinta e tres logares com dolmens ou antas, tres com menhirs e dois com mamunhas. Nada mais! Estão portanto officialmente inventariados tres menhirs e todos no concelho de Villa Velha do Rodam, um em Fantel, outro em Monte Fidalgo e o terceiro na ribeira de Alcafalla.

Por Sebastião Philippes Martins Estacio da Veiga
VEIGA, E. da (1886) – Antiguidades Monumentaes do Algarve - Tempos Prehistoricos, vol. I. Lisboa: Imprensa Nacional.

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«(...) Um menir é um monumento constituído por um monólito, mais ou menos oblongo, cravado verticalmente no solo e com dimensões muito variáveis. A matéria prima no que diz respeito aos menires portugueses, é constituída exclusivamente por granitos ou rochas granitóides, excepto os do Algarve, nos quais foram sistematicamente utilizados os calcários ou o grés (...)».

Por Manuel Calado
CALADO, M. (1993) – Menires, alinhamentos e cromlechs. In: MEDINA, J. (ed.) - História de Portugal, vol. 1 (coordenado por Victor S. Gonçalves), p. 294. Lisboa: Ediclube.


Inventário de Menires do Algarve:

Abrutiais (Silves)
Adreneira (3) (Vila do Bispo)
Afonso Vicente 1 (3) (Alcoutim)
Afonso Vicente 2 (4) (Alcoutim)
Alcalar 1 (Portimão)
Alcalar 4 (Portimão)
Alfarrobeira (Silves)
Almarjão (2) (Silves)
Amantes I (17) (Vila do Bispo)
Amantes II (10) (Vila do Bispo)

Areia das Almas (11) (Lagoa)

Arneiros (Vila do Bispo)
Aspradantas (3) (Vila do Bispo)
Barão de S.Miguel (Lagos)
Barradas (Vila do Bispo)
Bem Parece (Vila do Bispo)
Benagaia (Silves)
Bensafrim (Lagos)
Budens (Vila do Bispo)
Caramujeira (26) (Lagoa)
Carriços (5) (Vila do Bispo)
Casa do Francês (6) (Vila do Bispo)
Castanheiro (4) (Lagos)
Cerro das Alagoas (Loulé)
Cerro das Pedras (3) (Loulé)
Cerro do Camacho (5) (Vila do Bispo)
Colinas Verdes (Lagos)
Cruzinha (Portimão)
Cumeada (Silves)
Ferrel de Baixo (Lagos)
Ferrel de Cima 1 (Lagos)
Figueira (8) (Vila do Bispo)
Figueiral (8) (Lagos)
Gasga (6) (Vila do Bispo)
Gregórios (Silves)
Guadalupe (Vila do Bispo)
Ingrina (3) (Vila do Bispo)
Ladeiras (2) (Vila do Bispo)
Lameira (Portimão)

Lomba da Góia (1) (Vila do Bispo)
Lombos (3) (Lagoa)
Maranhão Novo (Lagos)
Marmeleiros (3) (Vila do Bispo)
Marreiros I (3) (Vila do Bispo)
Marreiros II (4) (Vila do Bispo)

Milrei (21) (Vila do Bispo)
Monte Alto (Lagos)
Monte Branco (Silves)
Monte da Pedra Branca (Silves)
Monte de Roma (Silves)
Montes Juntos (Lagos)
Morgados (Vila do Bispo)
Odiáxere (Lagos)

Padrão (15) (Vila do Bispo)
Palmares (4) (Lagos)
Pedra Branca (Lagos)
Pedra Escorregadia (3) (Vila do Bispo)

Pedra Moirinha (Portimão)
Pedras Ruivas (Loulé)
Pedras Ruivas (Portimão)
Penedo Gordo (Silves)
Pinheiral (2) (Lagos)
Pontais (Silves)
Portela da Vaqueira (Portimão)
Portela do Padrão (4) (Lagos)
Quinta da Queimada (7) (Lagos)
Rocha (2) (Lagos)
Rocha Branca (Silves)
Rochedo (Lagos)
S.Rafael (2) (Albufeira)
Sabrosa (4) (Lagos)
Salgadas (Lagos)
Santo António de Baixo (2) (Vila do Bispo)
Santo António de Cima (Vila do Bispo)
Serra da Borges (4) (Vila do Bispo)
Torre (2) (Lagos)
Torrejão Velho (Silves)
Três Bicos (Portimão)
Vale da Lama (Silves)
Vale de França (Portimão)
Vale de Gato de Cima (3) (Vila do Bispo)
Vale de Oiro (2) (Vila do Bispo)

Velarinha (Silves)

(inventário em actualização)

Arqueologia em Portugal 150 anos | A Arrábida no Bronze Final - leituras e narrativas




Arqueologia em Portugal 150 anos
A Arrábida no Bronze Final - leituras e narrativas
Ricardo Soares

RESUMO: Análise de questões relacionadas com as estratégias de povoamento, opções de culto, exploração de recursos disponíveis e vias de trânsito trilhadas pelas comunidades que habitaram o território da Serra da Arrábida no decorrer do Bronze Final. Tratandose de um tema escassamente estudado, mas onde já afloravam contextos particularmente sugestivos, entendeuse oportuno avançar com um inédito trabalho de síntese dos dados disponíveis. A hora ainda não permite obter uma perspectiva sincrónica e de “curta duração”, ainda assim, a informação produzida sugere um coerente complexo demográfico, instalado num território específico e individualizado, com algum grau de diferenciação e de ordenamento político-administrativo, insinuando uma forte articulação com as vias de comunicação, muito em especial as fluvio-marítimas.

ABSTRACT: Analysis of issues related to settlement strategies, cult options, exploration of available resources and transit routes threshed by the communities that inhabited the territory of the Arrábida range (Setúbal/Portugal) during the Late Bronze Age. This is a poorly studied subject, but particularly suggestive contexts have arisen, and
it seemed appropriate to bring forward an unprecedented summary of available data. Time does not provide a synchronic and “shorttime” perspective. Still, the information produced suggests a coherent complex demographic, installed in a specific and individualized territory, with some degree of politicaladministrative differentiation, suggesting a strong connection with the communication routes, most markedly the fluvialmarine.

Parabéns e obrigado à 
Associação dos Arqueólogos Portugueses 
pelos seus 
(nossos) 
150 anos